29 de jun. de 2014

O jornalismo lombrosiano e a retórica do ódio na mídia brasileira

Jaime Amparo Alves

Os brasileiros no exterior que acompanham o noticiário brasileiro pela internet têm a impressão de que o país nunca esteve tão mal. Explodem os casos de corrupção, a crise ronda a economia, a inflação está de volta, e o país vive imerso no caos moral. Isso é o que querem nos fazer crer as redações jornalísticas do eixo Rio - São Paulo.  Com seus gatekeepers escolhidos a dedo, Folha de S. Paulo, Estadão, Veja e O Globo investem pesadamente no caos com duas intenções: inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e destruir a imagem pública do ex-presidente Lula da Silva. Até aí nada novo.

Tanto Lula quanto Dilma sabem que a mídia não lhes dará trégua, embora não tenham – nem terão – a coragem de uma Cristina Kirchner de levar a cabo uma nova legislação que democratize os meios de comunicação e redistribua as verbas para o setor. Pelo contrário, a Polícia Federal segue perseguindo as rádios comunitárias e os conglomerados de mídia Globo/Veja celebram os recordes de cotas de publicidade governamentais.  O PT sofre da síndrome de Estocolmo (aquela na qual o sequestrado se apaixona pelo sequestrador) e o exemplo mais emblemático disso é a posição de Marta Suplicy como colunista de um jornal cuja marca tem sido o linchamento e a inviabilização política das duas administrações petistas em São Paulo.

O que chama a atenção na nova onda conservadora é o time de intelectuais e artistas com uma retórica que amedronta. Que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso use a gramática sociológica para confundir os menos atentos já era de se esperar, como é o caso das análises de Demétrio Magnoli, especialista sênior da imprensa em todas as áreas do conhecimento. Nunca alguém assumiu com tanta maestria e com tanta desenvoltura papel tão medíocre quanto Magnoli: especialista em políticas públicas, cotas raciais, sindicalismo, movimentos sociais, comunicação, direitos humanos, política internacional… Demétrio Magnoli é o porta-voz maior do que a direita brasileira tem de pior, ainda que seus artigos não resistam a uma análise crítica.

Agora, a nova cruzada moral recebe, além dos já conhecidos defensores dos “valores civilizatórios”, nomes como Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro. A raiva com que escrevem poderia ser canalizada para causas bem mais nobres se ambos não se deixassem cativar pelo canto da sereia. Eles assumiram a construção midiática do escândalo, e do que chamam de degenerecência moral, com o fato. E, porque estão convencidos de que o país está em perigo, de que o ex-presidente Lula é a encarnação do mal, e de que o PT deve ser extinguido para que o país sobreviva, reproduzem a retórica dos conglomerados de mídia com uma ingenuidade inconcebível para quem tanto nos inspirou com sua imaginação literária.

Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro fazem parte agora daquela intelligentsia nacional que dá legitimidade científica a uma insidiosa prática jornalística que tem na Veja sua maior expressão.  Para além das divergências ideológicas com o projeto político do PT – as quais eu também tenho -, o discurso político que emana dos colunistas dos jornalões paulistanos/cariocas impressiona pela brutalidade. Os mais sofisticados sugerem que a exemplo de Getúlio Vargas, o ex-presidente Lula cometa suicídio; os menos cínicos celebraram o “câncer” como a única forma de imobilizá-lo. Os leitores de tais jornais, claro, celebram seus argumentos com comentários irreproduzíveis aqui.
Quais os limites da retórica de ódio contra o ex-presidente metalúrgico? Seria o ódio contra o seu papel político, a sua condição nordestina, o lugar que ocupa no imaginário das elites? Como figuras públicas tão preparadas para a leitura social do mundo se juntam ao coro de um discurso tão cruel e tão covarde já fartamente reproduzido pelos colunistas de sempre? Se a morte biológica do inimigo político já é celebrada abertamente – e a morte simbólica ritualizada cotidianamente nos discursos desumanizadores – estaríamos inaugurando uma nova etapa no jornalismo lombrosiano?

Para além da nossa condenação aos crimes cometidos por dirigentes dos partidos políticos na era Lula, os textos de Demétrio Magnoli , Marco Antonio Villa, Ricardo Noblat , Merval Pereira, Dora Kramer, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Catanhede, além dos que agora se somam a eles, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira. Seus textos serão utilizados nas disciplinas de deontologia jornalística não apenas como exemplos concretos da falência ética do jornalismo tal qual entendíamos até aqui, mas também como sintoma dos novos desafios para uma profissão cada vez mais dominada por uma economia da moralidade que confere legitimidade a práticas corporativas inquisitoriais vendidas como de interesse público.

O chamado “mensalão” tem recebido a projeção de uma bomba de Hiroshima não porque os barões da mídia e os seus gatekeepers estejam ultrajados em sua sensibilidade humana. Bobagem! Tamanha diligência não se viu em relação à série de assaltos à nação empreendidos no governo do presidente sociólogo! A verdade é que o “mensalão” surge como a oportunidade histórica para que se faça o que a oposição – que nas palavras de um dos colunistas da Veja “se recusa a fazer o seu papel” – não conseguiu até aqui: destruir a biografia do presidente metalúrgico, inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e reconduzir o projeto da elite ‘sudestina’ ao Palácio do Planalto.
Minha esperança ingênua e utópica é que o Partido dos Trabalhadores aprenda a lição e leve adiante as propostas de refundação do país abandonadas com o acordo tácito para uma trégua da mídia. Não haverá trégua, ainda que a nova ministra da Cultura se sinta tentada a corroborar com o lobby da Folha de S. Paulo pela lei dos direitos autorais, ou que o governo Dilma continue derramando milhões de reais nos cofres das organizações Globo e Abril via publicidade oficial.

Não é o PT, o Congresso Nacional ou o governo federal que estão nas mãos da mídia. Somos todos reféns da meia dúzia de jornais que definem o que é notícia, as práticas de corrupção que merecem ser condenadas, e, incrivelmente, quais e como devem ser julgadas pela mais alta corte de Justiça do país. Na última sessão do julgamento da ação penal 470, por exemplo, um furioso ministro-relator exigia a distribuição antecipada do voto do ministro-revisor para agilizar o trabalho da imprensa (!). O STF se transformou na nova arena midiática onde o enredo jornalístico do espetáculo da punição exemplar vai sendo sancionado.

Depois de cinco anos morando fora do país, estou menos convencido por que diabos tenho um diploma de jornalismo em minhas mãos. Por outro lado, estou mais convencido de que estou melhor informado sobre o Brasil assistindo à imprensa internacional. Foi pelas agências de notícias internacionais que informei aos meus amigos no Brasil de que a política externa do ex-presidente metalúrgico se transformou em tema padrão na cobertura jornalística por aqui. Informei-lhes que o protagonismo político do Brasil na mediação de um acordo nuclear entre Irã e Turquia recebeu atenção muito mais generosa da mídia estadunidense, ainda que boicotado na mídia nacional. Informei-lhes que acompanhei daqui o presidente analfabeto receber o título de doutor honoris causa em instituições européias, e avisei-lhes que por causa da política soberana do governo do presidente metalúrgico, ser brasileiro no exterior passou a ter uma outra conotação. O Brasil finalmente recebeu um status de respeitabilidade e o presidente nordestino projetou para o mundo nossa estratégia de uma America Latina soberana.

Meus amigos no Brasil são privados do direito à informação e continuarão a ser porque nem o governo federal nem o Congresso Nacional estão dispostos a pagar o preço por uma “reforma” em área tão estratégica e tão fundamental para o exercício da cidadania. Com 70% de aprovação popular, e com os movimentos sociais nas ruas, Lula da Silva não teve coragem de enfrentar o monstro e agora paga caro por sua covardia.Terá a Dilma coragem com aprovação semelhante, ou nossa meia dúzia de Murdochs seguirão intocáveis sob o manto da liberdade de e(i)mprensa?

22 de jun. de 2014

Os 10 maiores micos da Copa do Mundo do Brasil

Por Najla Passos, da Carta Maior


A Copa do Mundo do Brasil ainda não passou da primeira fase, mas já são fartas as gafes, foras e barrigadas do mundial, especialmente fora do campo. E, curiosamente, elas nada têm a ver com as previsões das “cartomantes do apocalipse” que alardeavam que o país não seria capaz de organizar o evento e receber bem os turistas estrangeiros. Muito pelo contrário.

Os estádios ficaram prontos, os aeroportos estão funcionando, as manifestações perderam força, os gringos estão encantados com a receptividade brasileira e a imprensa estrangeira já fala em “Copa das Copas”.   Confira, então, os principais micos do mundial... pelo menos até agora!


1 - O fracasso do #NãoVaiTerCopa

Mesmo com o apoio da direita conservadora, da esquerda radicalizada, da mídia monopolista e dos black blocs, o movimento #NãoVaiTerCopa se revelou uma grande falácia. As categorias de trabalhadores que aproveitam a visibilidade do evento para reivindicar suas pautas históricas de forma pacífica preferiram apostar na hashtag #NaCopaTemLuta, bem menos antipática e alarmista. E os que continuaram a torcer contra o evento e o país, por motivações eleitoreiras ou ideológicas, amargam o fracasso: políticos perdem credibilidade, veículos de imprensa, audiência e o empresariado, dinheiro!


2 – A vênus platinada ladeira abaixo 

Desde os protestos de junho de 2013, a TV Globo vem amargando uma rejeição crescente da população. E se apostava no #NãoVaiTerCopa para enfraquecer o governo, acabou foi vendo sua própria audiência desabar. Uma pesquisa publicada pela coluna Outro Canal, da Folha de S. Paulo, com base em dados do Ibope, mostra que no jogo de abertura da Copa de 2006, na Alemanha, a audiência da Globo foi de 65,7 pontos. No primeiro jogo da Copa de 2010, na África do Sul, caiu para 45,2 pontos. Já na estreia do Brasil na Copa, neste ano, despencou para 37,5 pontos.

3 – #CalaABocaGalvão

Principal ícone da TV Globo, o narrador esportivo Galvão Bueno é o homem mais bem pago da televisão brasileira, com salário mensal de R$ 5 milhões. Mas, tal como o veículo que paga seu salário, está com o prestígio cada vez mais baixo. Criticar suas narrações virou febre entre os fãs do bom futebol. E a própria seleção brasileira optou por assistir os jogos da copa pela concorrente, a TV Band. O movimento #CalaABocaGalvão ganhou ainda mais força! O #ForaGlobo também!


4 – A enquadrada na The Economist 

A revista britânica The Economista, que vem liderando o ranking da imprensa “gringa” que torce contra o sucesso do Brasil, acabou enquadrada por seus leitores. A reportagem "Traffic and tempers", publicada no último dia 10, exaltando os problemas de mobilidade de São Paulo às vésperas de receber o mundial, foi rechaçada por leitores dos EUA, Japão, Holanda, Inglaterra e Argentina, dentre vários outros. Em contraposição aos argumentos da revista, esses leitores relataram problemas muito semelhantes nos seus países e exaltaram as qualidades brasileiras, em especial a hospitalidade do povo.

5 – O assassinato da semiótica

Guru da direita brasileira, o colunista da revista Veja, Rodrigo Constantino, provocou risos com o texto “O logo vermelho da Copa”, em que acusa o PT de usar a logomarca oficial do mundial da Fifa para fazer propaganda subliminar do comunismo. Virou chacota, claro. O correspondente do Los Angeles Times, Vincent Bevins, postou em seu Twitter: “Oh Deus. Colunista brasileiro defendendo que o vermelho 2014 na logo da Copa do Mundo é obviamente uma propaganda socialista”.  Seus leitores se divertiram usando a mesma lógica para apontar outros pretensos ícones comunistas, como a Coca-Cola (lol)!

6 – A entrevista com o “falso” Felipão

Ex-diretor da Veja e repórter experiente, Mário Sérgio Conti achou que tivesse tirado a sorte grande ao encontrar o técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, em um voo comercial, após o empate com o México. Escreveu uma matéria e a vendeu para os jornais Folha de S. Paulo e O Globo, que a publicaram com destaque. O entrevistado, porém, era o ator Wladimir Palomo, que interpreta Felipão no programa humorístico Zorra Total. No final da conversa, Palomo chegou a passar seu cartão à Conti, onde está escrito: “Wladimir Palomo - sósia de Felipão – eventos”. Mas, tão confiante que estava no seu “furo de reportagem”, o jornalista achou que era uma “brincadeirinha” do técnico...

7 – A “morte do pai” do jogador marfinense

O jogador da costa do Marfim, Serey Die, caiu no choro quando o hino do seu país soou no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Imediatamente, a imprensa do Brasil e do mundo passou a noticiar que o pai dele havia morrido poucas horas antes. A comoção vias redes sociais foi intensa. O jogador, porém, desmentiu a notícia assim que pode. Seu pai havia morrido, de fato. Mas há dez anos. As lágrimas se deveram a outros fatores. "Também pensei no meu pai, mas é por tudo que vivi e por ter conseguido chegar a uma copa do mundo”, explicou.

8 – “Vai pra casa, Renan!”

Cheio de boas intenções, o estudante Renan Baldi, 16 anos, escolheu uma forma bastante condenável de reivindicar mais saúde e educação para o país: cobriu o rosto e se juntou aos black block paulistas para depredar patrimônio público na estreia do mundial. Foi retirado do meio do protesto pelo pai, que encantou o país ao reafirmar seu amor pelo filho, mas condenar sua postura violenta e antidemocrática. A hashtag #VaiPraCasaRenan fez história nas redes sociais!

9 – O fiasco do “padrão Fifa”

Pelos menos 40 voluntários da Copa em Brasília passaram mal após consumir as refeições servidas pela Fifa, no sábado (14), um dia antes do estádio Mané Garrincha estrear no mundial com a partida entre Suíça e Equador. Depois disso, não apareceu mais nenhum manifestante desavisado para pedir saúde e educação “padrão Fifa” no país!

10 – Sou “coxinha” e passo recibo!

Enquanto o Brasil e o mundo criticavam a falta de educação da “elite branca” que xingou a presidenta Dilma no Itaquerão, a empresária Isabela Raposeiras decidiu protestar pela causa oposta: publicou no seu facebook um post contra o preconceito e à discriminação dirigidos ao que ela chamou de “minoria de brasileiros que descente da elite branco-europeia”. “Não sentirei vergonha pelas minhas conquistas, pelo meu status social, pela minha pele branca”, afirmou.  Virou, automaticamente, a musa da “elite coxinha”.

13 de jun. de 2014

As vaias a Dilma e os neoflautistas de Hamelin

Por LUIS NASSIF:

Encontro um banqueiro meu conhecido após o jogo da Copa. Ficou em um dos camarotes VIPs, ao lado de personalidades como Gilmar Mendes.  Foi com a namorada ao Itaquerão. Ambos estavam impressionados com a qualidade do estádio, com a limpeza dos banheiros, com a beleza e relevância do evento. Até Lázaro Brandão, o todo-poderoso presidente do Conselho do Bradesco, esteve presente, me diz ele.

Tudo funcionou a contento, disseram-me, o trânsito (que depende da Prefeitura), o Metrô (que depende do estado), o estádio (cuja construção foi apoiada pelo governo federal). Enfim, motivo geral para espalhar pelo mundo uma imagem mais positiva do país. Apenas um dado falhou, para vergonha de São Paulo: o nível das vaias à presidente da República. - Não era povão. Veio das alas VIPs e foi constrangedor.

O momento mais baixo da Copa, o episódio que manchou a imagem do país no mundo partiu daquele segmento que Cláudio Lembo chama de “elite branca”. Mas, como bem observou um de nossos comentaristas, não os trate como elite. Elite pressupõe um estágio intelectual e moral superior. São Paulo tem uma elite intelectual, médica, tecnológica. Os que se manifestaram representam apenas a selvageria empetecada, os black blocs com grife. O caráter de um jornal é dado pela soma individual dos seus colunistas e pela linha editorial. Hoje, o episódio foi lamentado pelos maiores cronistas esportivos, timidamente em suas colunas, mais acerbamente em seus blogs. Mas são  pontos fora da curva. 

A baixaria contra uma presidente da República, uma mulher digna, não mereceu condenação dos jornais, mas a celebração em suas manchetes.  O grito: “Dilma vai tomar no c…” torna-se, a partir de agora, o símbolo máximo do enorme poder de que dispõe a mídia para influenciar o baixo clero da “elite branca”. São incapazes de separar a crítica ao estilo dos ataques pessoais. Não é por nada que tornaram José Serra seu herói predileto. Qualquer coisa vale na disputa política, principalmente abrir mão de ideias e recorrer aos ataques mais baixos.


Os jornalões tornaram-se a versão moderna e adaptada do Flautista de Hamelin. O flautista levava os ratos para o rio e os afogava. Os jornais levam os ratos para o mundo - e os celebram.
Não foi por outro motivo que a parte do evento que mais impressionou a colunista social do Estadão foram alguns banheiros entupidos. Na verdade, havia pouco banheiro para a m… que jorrou dos camarotes, estimulada pelos neoflautistas de Hamelin.

15 de fev. de 2014

A MAGIA DA RETORICA AUTORITARIA: o terrorismo no léxico político da mídia alternativa

Jaime Amparo Alves

A magia da retórica autoritária: de repente uma preocupante afinidade discursiva entre representantes da imprensa alternativa - principalmente a combativa blogsfera - e a grande mídia. A morte do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, se transformou em um prato-cheio para jornalistas e blogueiros progressistas vomitarem adjetivos como “criminosos”, “homicidas” e “terroristas” como se trabalhassem nas redações de Veja ou da Globo. A ativista Elisa Quadros “Soninho” é classificada como “fria e com uma disposição quase infinita para tocar o terror”, o deputado Marcelo Freixo visto como “financiador da violência” e advogados-militantes como co-participantes em atos delinquenciais. Quem de nós, militantes sociais, estará salvo destes rótulos?

Os black blocs são controversos em seu usos da violência como meio, mas não são terroristas. Ponto! Com um pouco de boa-fé dá para saber que os dois jovens acusados pelo  “homicídio” de Santiago Andrade não premeditaram “assassinar”  um profissional da imprensa, como a verborragia facista quer fazer crer. Ao invés de seguirmos a trilha perigosa da direita brasileira, deveríamos ser  mais inquisitivos sobre a mensagem que nos querem transmitir e mais curiosos ainda sobre o contexto político que possibilitou seu surgimento entre nós.

Os Black Blocs surgem no Brasil em um contexto de repressão policial e de monopólio da voz que deixa poucas alternativas para as vozes dissonantes. Quando um deputado federal rasga na tribuna da Câmara uma revista semanal de informação, o faz  porque a violência da mídia sequestra seu direito, julga, assassina reputações, enfim, a mídia mesmo se converte em um atentado `a liberdade de expressão. A violencia legítima do parlamentar não pode ser comparada `a violencia da mídia. No mesmo sentido, ainda que os Black Blocs nos assustem, sejam instrumentalizados e desagregem algunas bandeiras de luta, tratar sua violência como “terrorismo social”(sic!) é desconhecer as implicações políticas do uso de tal termo e os custos a serem pagos pelos lutadores e lutadoras sociais ao introduzí-lo no léxico político do país. As manifestações “extremas” estão acontecendo em um contexto extremo de abuso do poder público, de violência policial e de autoritarismo midiático. Não estariam os black blocs na verdade reivindicando para sí parte da violencia monopolizada pelos meios de comunicação e pela policía? Não estaría aí a razão da tentativa, em vão, da Globo e cia em tirar dividendos políticos das manifestações?

No bojo da etiqueta “terrorismo” vem a tática facista que a direita parece ter conseguido pulverizar entre muitos de nós: a criminalização dos movimentos sociais. Esta seria a nossa maior derrota política e o governo Dilma Rousseff realmente não necessita desta trágica vitória para manter sua popularidade. Ainda que boa parte dos protestos de junho de 2013 tenham desembocado em uma agenda partidária/midiática na busca pela inviabilidade do governo e da reeleiçao da presidenta Dilma - e ainda que haja uma violencia condenável por parte de jovens aderentes ao quebra-tudo -  seria uma tragédia os petistas (e a blogosfera simpatizante) convergirem com Veja e Globo na exploração insidiosa da morte do cinegrafiasta da Band e na criminalização dos ativistas sociais.

Aqueles e aquelas torturadas na ditadura como terroristas, assassinados nas favelas como bandidos, espancados nos protestos pela reforma agraria como neobobos…. sabem que a linha que demarca os limites do protesto e da ordem é bastante arbitrária porque depende de quem tem o poder de definir-la. Parafraseando a própria presidenta Dilma - em sua indisposição em enfrentar a violência diária da mídia - não é preferível o barulho das ruas do que o silêncio da ditadura?

Há leis suficientes no Brasil que regulam as manifestações populares e protestos. Não necessitamos de uma lei anti-terror para conter a violência de alguns manifestantes, ou de grupos infiltrados (black blocs, P2…) nas lutas sociais. O que nos faltam são uma polícia civilmente preparada para a democracia e governos mais abertos `as vozes das ruas e mais intolerantes com o autoritarismo da mídia.  Os governos autoritários de Cabral (PMDB) e Alckmin (PSDB) têm na violencia policial, muito antes do surgimento dos black blocs, sua  tática de guerra, assim como o jornalismo econômico tem sua tática do caos.

A morte de Santiago Andrade foi uma tragédia, não foi um cálculo politico de jovens terroristas. Do mesmo modo, somente quem não tem “experiencia” de lutar nas ruas pode associar as “vaquinhas” que a militância sempre faz e sempre fez - para comprar a água, a passagem, o lanche, as bandanas, apoiar os condenados injustamente ….-  como “apoio financiero ao terrorismo”. A estratégia covarde de criminalizar a solidariedade dos movimentos sociais encontra - no contexto de nossa campanha coletiva pelo presos políticos Dirceu, Genoino, Cunha e Delúbio – uma flagrante contradição. 

  Ouvindo a exploração do “assassinato” no editorial do Jornal Nacional fica mais visível que profissionais como Andrade são também vítimas das empresas nas quais trabalham. O jornalismo criminoso praticado nas grandes redações expõe seus profissionais e é combustível perigoso para uma juventude que não encontra canais de expressão para suas pautas políticas. A imprensa alternativa que se quer plural e de esquerda faria melhor se distanciando do discurso autoritário da grande mídia. Não se trata de defender os black blocs, mas de contextualizar os diferentes empregos da violencia como meio e como fim.

Quando do julgamento da ação penal 470 enviei um email pouco educado ao deputado  Ivan Valente cobrando uma postura coerente. Não havia visto um posicionamento seu, tampouco do partido, em defesa das lideranças do PT “assassinadas” políticamente. O silêncio de boa parte da esquerda em relação `a  flagrante  agenda autoritária do complexo STF/conglomerados de mídia de destruição do PT – em que pesem os erros estratégicos dos governos Lula e Dilma - é uma covardia que deixa aqueles `a esquerda do PT mais pequenos. O “mensalão” conseguiu reunir, por cumplicidade e omissão, esquerda e direita contra o PT. Do mesmo modo, se unir ao coro de Globo e cia na criminalização de partidos como o PSTU e o Psol é um caminho que suja a história do Partido dos Trabalhadores e acende uma luz vermelha nas conquistas democráticas.


A impresa alternativa – principalmente a blogosfera na qual buscamos as contranarrativas - tem nos últimos acontecimentos no Rio de Janeiro a sua prova de fogo. É assumir os ideais da esquerda democrática – o que significa empurrar o PT à esquerda, criticar a violencia como meio, buscar uma unidade estratágica contra a direita -  ou se sucumbir ao discurso da orden a qualquer preço. Se a escolha for pela segunda opção, que não encham o saco. Já estamos satisfeitos com Folha, Veja e Globo.   

26 de jun. de 2013

Dói em Todos Nós?

A violência policial, a morte negra e a dor branca
 Jaime Amparo Alves*
“Há esperança, mas não para nós” (Kafka)

As imagens da Polícia Militar espancando os jovens da classe média em seu cívico direito de ocupar as ruas e praças têm causado indignação e horror. Nada tem sido mais pertubador do que ver nos jornais pessoas ensanguentadas, correndo sob balas, jatos de pimenta no rosto, ou sendo varridas das ruas a pauladas. Talvez o exemplo mais pertubador da truculência policial sejam as fotos da jornalista da TV Folha, Giuliana Vallone, atingida no olho por uma bala de borracha. O ultraje foi tão grande que o fotográfo Yuri Sardenberg mobilizou artistas globais para a campanha “ Dói em Todos Nós”, um protesto da chamada sociedade civil contra a selvageria policial. De repente o país descobriu a existência de uma polícia violenta, covarde, incompatível com o estado democrático de direitos. O Brasil acordou! Acordou? Quem estava dormindo, afinal?

Acompanhei a campanha com indiferença. Não despertou em mim nem a solidariedade de profissão com a jornalista agredida nem a condição comum de sermos brasileiros "com muito orgulho e com muito amor". Nem mesmo a frustração comum com o sistema politico-partidário do país foram suficientes para despertar uma empatia com a campanha. É que o registro mental que tenho desde quando me entendo por gente é do corpo negro brutalizado nas favelas, nas prisões, no caveirão. A campanha falhou em me sensibilizar não porque eu desconsidere o sofrimento das vítimas da polícia nas ruas do país - para além da cor da pele ou das ideologias que sustentam - mas porque me falta o registro do terror policial no corpo branco e nas áreas nobres das nossas metrópoles. O que está em questão aqui é a intensidade (e persistência) que faz da morte negra uma banalidade e da vitimização branca uma tragédia.

Manifestante do movimento negro em Salvador/Bahia
Por que as agressões aos jovens brancos, do asfalto, comovem milhões de brasileiros e o assassinato diário de jovens negros pelas forças policiais não vale vinte centavos? Por que se é negado o luto às mães negras nas favelas brasileiras onde o estado não apenas mata mas também destrói corpos negando a possibilidade da elaboração da dor? Não reclamo a originalidade da crítica  (afro)pessimista `as noções mesmo de Direito, Lei e Justiça, mas vale a pena repeti-las no contexto presente: é porque a morte negra é absolutamente irrelevante do ponto de vista dos direitos humanos e imprescindível do ponto de vista da democracia. A agressão aos brancos é uma agressão ao estado democrático de direitos. A morte negra é precisamente o parâmetro pelo qual se define tal estado democrático de direitos. Em outras palavras, a morte negra cumpre essa função explicitada nos últimos protestos: porque necessária para a definição mesma da ordem pública, ela marca o território civil onde o protesto é permitido e onde a agressão policial é vista como aberração, desvio anti-democrático. Como pôde a polícia ter coragem de lançar gás lacrimogêno nos jovens brancos de classe média?  Jesus Cristo!

Não quero desconsiderar o mérito dos protestos juvenis por mais direitos e pela expansão da democracia participativa. Quero estar do lado certo quando a história relembrar o momento presente e o meu lado é o do poder popular. Mas esta hora em que a direita - “forte e raivosa”  como diz Douglas Belchior - está nas ruas mobilizando consigo uma classe média branca ressentida com as politicas sociais dos ultimos dez anos,  exige uma reflexão sobre o que se entende mesmo como poder popular e movimento social. A dificuldade em articular uma linguagem que dê conta do que estamos vivendo reside precisamente na alegria de ver o país nas ruas e na frustração de ver a pauta negra - pelas ações afirmativas, contra o genocídio e o encarceramento em massa - invisibilizada. O que o silêncio em torno do asssassinato de 272.422 negros nos últimos dez anos - como revela o Mapa da Violência/2012 -  tem a nos dizer sobre os limites e possibilidades de agendas de lutas coletivas como a que se vê agora? Pode-se dizer que a agenda dos movimentos sociais foi sequestrada pela direita e portanto não é apenas a agenda negra que está invisibilizada. Verdade. Mas não seria o caso do sequestro atual ser também uma reiteração em larga escala do que o movimento negro enfrenta em tempos de “normalidade”?

O Brasil Acordou

É por isso que o grito “O Brasil acordou” é totalmente irrelevante para a população negra em seus encontros mortais com a polícia brasileira. Na verdade o slogan é tão irrelevante quanto a cantilena dos direitos humanos, da participação cidadã, ou da defesa da democracia. “Para quem vive na guerra a paz nunca existiu”, responderia Mano Brown com sua voz inconfundível. A máquina de guerra do Estado brasileiro mata e continuará matando os negros sem que tais práticas se convertam em ultraje nacional nem para a direita nem, nem para o centro, nem para a esquerda.

Os slogans da Polícia da Caatinga na Bahia (“Pai faz, Mãe cria e Caatinga Mata!”), de São Paulo (Deus dá a luz a Rota apaga”) e do BOPE no Rio (“Homens de preto qual é sua missão, entrar na favela e deixar corpos no chão”) são ilustrativos do lugar que ocupam corpos e geografias racializadas no discurso da ordem e da democracia. O fato de Sérgio Cabral (PMDB), Geraldo Alckmin (PSDB) e Jaques Wagner (PT) serem eleitos, reeleitos e não sofrerem nenhum processo de impeachment mesmo com milhares de mortes em suas mãos dão uma dimensão não da permissividade, mas da utilidade da morte negra para a existência branca. Se o Estado cria as condições para tais mortes, a chamada sociedade civil sanciona e lucra com elas uma vez que o assassinato de negras e negros perpetua a  dominação e confere  privilégio racial.

Doesse em todos nós, como quer fazer crer a campanha da ‘sociedade civil’ contra a violência policial, a vitimização branca nas mãos da polícia não seria tratada como a aberração de quem acordou agora para uma realidade vivida diuturnamente pela gente negra. É aqui que a solidariedade política encontra os seus limites: os brancos têm uma “impossibilidade cognitiva” para entender a experiência negra e portanto a especificidade da condição negra se perde nas pautas universalistas ou se invisibiliza nas agendas autoritárias.

Não que os negros e negras não estejam lutando nas praças pela redução das tarifas dos transportes públicos, por um SUS mais forte, e pela educação pública, gratuita e de qualidade. Estão!. Mas onde estavam os brancos quando a gente negra estava chorando seus mortos nas favelas brasileiras? Onde estavam os milhares de manifestantes quando do terror policial nas periferias de Salvador, Sao Paulo, Rio de Janeiro, para nomear as três maiores cidades do país? Pois bem, o privilégio branco não se dá apenas nos aspectos econômicos, mas na definição mesma da dor doível, da “vida vivível” e da “morte chorável” – em uma tradução livre dos termos de Judith Butler.

Dois exemplos adcionais para um ponto final: a) em um texto comovente Douglas Belchior narra sua frustração e revolta ao ver a bandeira da Uneafro-Brasil ser arrancada de suas mãos e queimada em uma passeata no centro de São Paulo. Belchior localiza na direita ‘forte e raivosa’ as tentativas de silenciar a agenda do movimento. Certo, mas não custa lembrar que as contínuas ações das entidades negras contra o terror policial raramente encontram eco nas esquerdas organizadas. A favor da direita pode se argumentar que ela tem os campos bem demarcados: anti-negro, anti-pobre, anti-mulher, anti-gays, anti-vida.  Mas no caso da esquerda, se põe para nós negras e negros o preço a pagar “para não fragmentar a luta de classes”.
 b) Enquanto ocorria uma manifestação na periferia de São Paulo, no último dia 23 de junho, policiais da Rota assassinaram três pessoas em suposto confronto. A Rota é a polícia intocável do governador tucano Geraldo Alckmin. O que os dois casos têm em comum? Elas apontam para o limbo em que se encontra a gente negra: entre uma pauta invisibilizada nas ruas e a morte invisibilizada na periferia. Ta aí porque a dor não “dói em todos nós”. Em todos nós os cambaus, cara branca!


*Jaime Amparo Alves, jornalista, ativista do movimento negro e doutor em Antropologia Social, Universidade do Texas, Austin.
Creditos:Charge (1) Latuff, Foto (2) Raquel Luciana de Souza

22 de jun. de 2013

A primavera brasileira ou inverno chileno?

ESTAMOS NOS TRÓPICOS!

Jaime Amparo Alves

As mordomias insidiosas dos parlamentares, os privilégios do judiciário, as oligarquias regionais e as frustrações dos brasileiros com os gastos da Copa do Mundo são o caldo de uma revolta que tem sacudido o país e deixado as autoridades atônitos. Com agenda difusa e com uma composição bem diversa - dos ultra-conservadores exigindo a volta dos generais aos movimentos sociais exigindo a ampliação de direitos - as manifestações deixam dúvidas sobre a estação política que estamos vivendo. Deveríamos estar contentes em ver finalmente a multidão ocupar as ruas do país e exigir mudanças, ou preocupados com os rumos de um movimento que vai sendo apropriado pela direita brasileira? Primavera ou inverno sombrio? Para usar a expressão de Levi Strauss, estamos nos "tristes trópicos"...
Nenhum dos poderes está sendo salvo das críticas, mas pelo menos na cobertura da mídia o alvo é bem definido: o governo. Mas... que governo, afinal? O de Geraldo Alckmin (PSDB) que tem em São Paulo a polícia mais violenta, a maior população carcerária e um dos piores transportes urbanos do país? Ou o governo de Sérgio Cabral (PMDB), a quem igualmente se pode creditar milhares de mortes de jovens negros nas periferias do Rio de Janeiro e uma rede de hospitais públicos sucateada? Ou ainda as Minas Gerais do senador Aécio Neves (PSDB), réu em ação civil que investiga o desvio de R$ 4,3 bilhões da área da saúde daquele estado?
Apesar das manifestações serem incisivas contra governantes de todas as siglas partidárias, que ninguém se iluda: sem desconsiderar o protagonismo das organizações populares e a legítima atuação da juventude levando os governadores e prefeitos a devolverem aos gritos os ajustes das já extorsivas tarifas, muitos dos protestos que se seguirão até a Copa do Mundo em 2014 (se houver tal evento) serão energizados pelo moralismo dirigido da mídia e por uma classe média ressentida com as políticas sociais dos últimos dez anos do governo federal. A paradigmática cobertura dos protestos, pela grande mídia, dão uma dimensão do problema:
Na tarde da última quinta-feira 13 de junho José Luiz Datena, o âncora do horripilante Brasil Urgente, fez uma daquelas enquetes cretinas em que a pergunta já leva a resposta, tentando arrancar do telespectador a condenação dos protestos. Perguntava sem constrangimentos: "Você é a favor deste tipo de protesto?" A resposta foi um taxativo "sim" (2090 x 1477). Inconformado, Datena tentou mais uma vez: "você é a favor de protesto com baderna?" Não adiantou: 2179 votos a favor, e 915 contra deixaram o apresentador constrangido. Datena engoliu a enquete e começou a apoiar a manifestação, até então tratada como vandalismo. O editorial "Retomar a Paulista", do jornal Folha de S. Paulo do dia 13 de junho também é paradigmático: Segundo a Folha, a manifestação do "grupelho" não tinha outra intenção que "vandalizar os equipamentos públicos". O moribundo Estadão não ficou atrás. Como era de se esperar, o jornal também caracterizou os manifestantes como desordeiros e desocupados. Passaram a "apoiar" o movimento quando viram ali a possibilidade de atingir o governo federal e o PT.
O mesmo script seguiu a imprensa televisiva, com destaques para a TV Globo e a Rede Record. Da mea culpa dissimulada de Arnaldo Jabor, ao cinismo de Marcelo Resende, a mídia começou a investir na retórica de uma campanha cívica para limpar o Brasil da corrupção. Houve reações: Jornalistas da TV Globo foram expulsos aos gritos de "fora Rede Globo, o povo não é bobo" e os carros de transmissão da Rede Record e do SBT arderam em chamas em praça pública. Como evidencia a cobertura cretina da Folha de S. Paulo - mesmo depois de ter seus repórteres agredidos pela Polícia Militar - o rei pode estar nú mas não está morto. Os próximos protestos durante a Copa das Confederações e os que virão com ainda mais força durante a Copa do Mundo de 2014 (se houver tal evento) irão mostrar uma mídia comprometida com o caos. A cobertura da TV Globo, em clima festivo, na noite da última quinta-feira, 20 de junho, dispensa comentários extras sobre o papel da mídia no que vem por aí.
CAVALO SELADO
Como os movimentos sociais podem ocupar as ruas e praças sem ver suas pautas sendo sequestradas pelos meios de comunicação em busca do caos no país? Como distinguir a raiva legítima contra um Congresso Nacional caro, ineficiente, longe dos anseios populares e os interesses corporativistas daqueles que querem judicializar a política e distanciar o povo das decisões sobre o seu futuro? Como os movimentos sociais em suas diferentes vertentes identitárias - negro, indígena, de mulheres, glbt, sem-terra, sem-voz - podem "aproveitar" a rebeldia digital da juventude para fazer valer suas pautas? (Aqui está um desafio especial para o movimento negro uma vez que mesmo com a exclusão gritante de jovens negros das universidades e as alarmantes taxas de assassinatos nas periferias, o que desperta a solidariedade política são as imagens dos jovens brancos de classe média sendo brutalizados pela polícia). Finalmente, como separar a crítica incisiva e urgente à agenda reformista do governo Dilma das estratégias golpistas da oposição e de uma classe média ressentida pelas políticas de inclusão social que tiraram 40 milhões de brasileiros da pobreza nos últimos dez anos? Dito de outra forma, o que fazer quando defender o governo dos ataques dos tubarões da direita é restringir o horizonte politico das esquerdas?
Meu objetivo aqui é mais simples e modesto do que responder a estas questões. Quero apenas chamar a atenção para o perigo que ronda o país com as aventuras golpistas e para a covardia política do PT que pode inviabilizar o que resta do governo Dilma Rousseff. Pelo menos no que diz respeito 'as intervenções dos movimentos sociais, os protestos podem ser lidos como um ultimato a Dilma: ou governa com o povo ou o fantasma de 64 volta a nos assombrar. Talvez seja a hora da presidenta vir à televisão e reintroduzir na agenda pública a série de demandas populares engavetadas até aqui. Aqui vão meus 0,20 centavos de contribuição:
Como Lula, Dilma possui(a) a popularidade dos sonhos do presidente sociólogo, mesmo na faixa da reacionária classe média. A popularidade, no entanto, não foi suficiente para fazer a presidenta levar a cabo as medidas necessárias para aprofundar as transformações iniciadas em 2003. Ao fazer a opção de barganhar apoios no precário sistema de alianças políticas, Dilma está perdendo a oportunidade histórica de governar com o povo nas ruas. As últimas lambanças do PMDB e as chantagens do PSB mostram que a presidenta está em uma piscina de tubarões. Dilam tem horror a estas alianças mas está convencida que este é o único jeito de garantir a "governabilidade". Tal como Lula, a presidenta não quer se indispor com temas espinhosos tais como a reforma política, um novo marco nas comunicações sociais, a reforma agrária e urbana, a reestruturação do SUS (começando com a vinda de médicos cubanos para o país), somente para nomear alguns.
No caso do novo marco nas comunicações, o governo Dilma não apenas engavetou o projeto do ex-ministro Franklin Martins como o Ministro Paulo Bernardo se converteu em um cínico defensor da "liberdade de empresa", dando voz a uma falsa incompatibilidade entre as propostas de democratização dos meios de comunicação e a liberdade de imprensa. O ministro se posicionou contra um a pauta cara aos movimentos sociais criminalizados pelos conglomerados de mídia. O partido mais perseguido pelos meios de comunicação de massa é o mais subserviente a eles: cotas publicitárias milionárias, perseguição 'as radios comunitárias, engavetamento da CPI da Veja e até o tributo oficial do Ministro da Educação Aloysio Mercadante a Folha de . Paulo, uma empresa jornalística comprometida até a cabeça com o golpe de 1964. Apesar das concessões, o resultado esta aí: o terrorismo do jornalismo econômico anula os penosos ganhos da política fiscal, a seletiva cobertura dos escândalos de corrupção invisibiliza a agenda positiva do governo, a pauta conservadora mina o seu capital politico.
Mais emblemático ainda da covardia política é o recuo no projeto de envio de médicos cubanos ás regiões mais pobres do país. Para viabilizar sua candidatura ao governo paulista em 2014, Alexandre Padilha recuou após a pressão do Conselho Federal de Medicina e dos partidos de oposição PPS e PSDB. O governo recuou mesmo sabendo que a maioria da população já está fazendo os cálculos dos gasto estratosféricos com a Copa do Mundo em contraste com as condições dos hospitais públicos país afora. Alguém teria que dizer ao ministro Gilberto Carvalho, então, que quem foi 'as ruas contra o aumento na tarifa dos ônibus também irá na defesa dos médicos cubanos e de outras pautas urgentes. É verdade que não haverá a adesão total da classe média, mas os movimentos sociais organizados estarão lá.
Ineficaz argumentar que o governo federal já atualizou a tabela de repasse do SUS e que esta é uma responsabilidade compartilhada com todos os entes federativos. Assim como na desoneração da cesta básica e dos tributos dos transportes, as mafias locais não repassam as contínuas isenções fiscais oferecidas pelo governo. Aí, na hora da dor, é Brasília que vem 'a cabeça.
A COPA DO MUNDO É NOSSA?
No que diz respeito 'a Copa do Mundo per si, os custos sociais do evento são maiores do que qualquer benefício futuro e talvez seja a hora de devolver o abacaxi à FIFA. Não queremos a Copa. A preparação do mundial se converteu em um conjunto de violações de direitos humanos pelos quais os governos federal e estaduais devem responder. Remoções de comunidades do entorno dos estádios, criminalização dos movimentos sociais, invasão militar e assassinatos nas favelas, além dos altos custos econômicos das obras evidenciam o saldo macabro do evento. O governo perdeu a oportunidade de coordenar uma agenda de reforma urbana, em diálogo com os movimentos sociais, que privilegiasse o direito 'a cidade. Os novos equipamentos esportivos irão não apenas aprofundar as desigualdades urbanas como já estão sendo transferidos para a iniciativa privada (ver a tentativa de licitação fraudulenta do Maracanã e os "patrocinadores" das novas arenas Brasil afora).
A Lei da Copa representou uma agressão 'a soberania do país criando uma série de regalias para os representantes da FIFA. 'A base da chantagem, Joseph Blatter e sua turma impuseram goela abaixo das autoridades brasileiras ridículas exigências que vão da qualidade dos assentos 'a proibição do comércio informal no entorno dos estádios. Ameaçando dar um "chute no traseiro" do ministro dos Esportes, a FIFA recebeu a total garantia de construção de estádios ultramodernos, a flexibilização das leis de proteção ao consumidor e o ressarcimento pelo governo brasileiro por qualquer prejuízo que a organização venha a ter.
Dilma não pode atender a todas as exigências que aparecem nas redes sociais tais como a aprovação dos projetos de lei que transformam a corrupção em crime hediondo ou o fim do foro privilegiado. Tampouco pode enviar Sarney de volta ao Maranhão, exorcizar Feliciano, moralizar o judiciário... Estas são competências distintas de cada poder da República, embora o seu partido possa e deva influir em tais demandas. Ainda assim, sua sobrevivência política vai depender da capacidade de dialogar com os movimentos sociais para responder às frustrações populares nas áreas críticas do governo: segurança, saúde, educação, mobilidade urbana.
Desde 2003 os movimentos sociais da cidade e do campo têm sido reféns de uma lógica política do "para não dar combustível 'a direita, vamos poupar o PT". Os horrores neoliberais dos oito anos do governo FHC foram a referência para o cálculo politico. O problema é que já se vão dez anos de concessões estratégicas e de frustrações com um projeto político reformista e refém da reeleição. Talvez o momento ensine a presidenta e a sua equipe que a direita não irá fazer as concessões políticas que a fragmentada esquerda tem feito. No final das contas, a frustração com Dilma é a mesma desde 2003 quando o presidente metalúrgico chegou ao poder. Oxalá tivéramos um pouco da revolução bolivariana. Que lástima, não há como se aconselhar com o comandante Chaves!

16 de jun. de 2013

As Marchas: Paulo Freire e o seu profetismo!

"Eu morreria feliz em ver o Brasil, em seu tempo histórico, cheio de marchas.
As marchas revelam o ímpeto dessa vontade amorosa de mudar o mundo" Paulo Freire