Por Jaime Alves e Raquel de Souza
A delinquência jornalística da grande
mídia brasileira não tem limites. A mídia brasileira é um desastre
ético-moral. Exemplo? Surpreende a agressiva campanha para destruir a
biografia do ex-presidente Lula da Silva e tornar inviável o já
desastroso segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff. A segunda tarefa é
relativamente fácil. Dilma e sua equipe parecem resignados a morrer
abraçados a um projeto político que busca apaziguar o “Deus-Mercado” com
ajustes e concessões que afetam diretamente os mais pobres. Se por um
lado as ações do governo para minimizar a “crise” internacional são
deturpadas no noticiário econômico, por outro o governo abraça a
“liberdade de imprensa” como um valor absoluto que, portanto, não pode
ser confrontado. Dilma continua na firme e autofágica crença de que o
controle remoto é o melhor regulador dos meios.
Que a regulação da mídia não seja pauta do governo não surpreende,
principalmente em função do esfarelamento da base aliada. O que não é
óbvio ou racional é a sua estratégia política de comunicação. O acordo
para flexibilizar jornadas de trabalho e evitar demissões é deturpado
pela mídia e se manifesta na boca do povo como “governo reduz salários
dos trabalhadores”; uma vez que o governo não reclama para si as
operações da Polícia Federal, elas são canibalizadas pelo noticiário
como ações contra o governo “mais corrupto da história”, e não como um
trunfo da transparência no combate à corrupção. A biografia de Dilma
Rousseff autoriza a presidenta a ocupar a rede nacional de televisão e
apresentar à sociedade um saldo de todas as ações da PF esvaziando o
discurso moralista da oposição e da mídia corporativa. Dilma, ao
contrário, parece resignada a conceber a PF como uma entidade exógena ao
seu governo.
No caso do ex-presidente Lula da Silva, o empenho da mídia para criar factoides revela um amadorismo insultante. O Globo e a Época,
por exemplo, têm se esforçado para encontrar um elo entre Lula e a
Operação Lava Jato. Requentar matérias antigas, fazer associação entre
eventos díspares, sobredimensionar procedimentos-padrão do
Ministério Público dando vazão às ambições pessoais de procurador com
carreira profissional no mínimo curiosa, e o esforço orquestrado no
campo semântico para que termos como “crime”, “corrupção” e “corrupto”
sejam incessantemente associados ao Partido dos Trabalhadores e ao seu
líder máximo fazem parte do esforço concertado de destruição da
biografia de Lula e da trajetória do PT.
Autoritarismo e intolerância
Agressiva em seu esforço em associar Lula aos escândalos políticos, a revista Veja
já chegou ao extremo de invadir a casa de parentes do ex-presidente
para revelar uma suposta festa milionária do seu sobrinho. Desmascarada a
fraude, a revista soltou uma nota de algumas linhas se desculpando ao
presidente e à sua família “por quaisquer transtornos que possa
ter ocasionado”. Veja minimiza o incidente como “um transtorno”, um
errinho do repórter Ulisses Campbell, autor da matéria fantasiosa.
Veja
está bem acompanhada no que diz respeito à delinquência da imprensa
brasileira. Do “podemos tirar se quiser”, da agência de notícias Reuters
em referência aos escândalos na Petrobras sob o governo FHC, à omissão
do nome do senador José Serra – pelo Estadão – em anotações de
Marcelo Odebrecht identificadas pela Polícia Federal, a imprensa
brasileira vai se especializando cada vez mais em produtora de fraudes
jornalísticas. Se o discurso da imparcialidade ainda era vendido como
estratégia de propaganda, agora, mais do que nunca, a imprensa está
“transparente”. Transparente, para não deixar dúvidas, no sentido de
nua, sem verniz, sem compromisso com o mito que a legitimava. De rabo
preso com o entrevistado, a Folha de S.Paulo nos dá a dimensão
exata desse abandono do “mito”: os documentos vazados pela PF dão conta
do “acerto” entre a assessoria de Marcelo Odebrecht e o repórter da Folha para realizar uma entrevista leve, sem assuntos polêmicos e que oferecesse a oportunidade para o empreiteiro “dar seu recado”.
Até mesmo o Jornal Nacional, que em reação à queda de
audiência modificou o seu formato para ficar mais “informal”, tem
utilizado o recurso de concentrar as notícias relacionadas à Operação
Lava Jato no horário próximo à novela das 9, quando os telespectadores
mais céticos em relação ao discurso anticorrupção começam a sintonizar
para assistir à novela do horário nobre. O ator-jornalista William
Bonner aparece agora mais cordial e mais consternado com a “praga da
corrupção” que assola o país.
Globo e companhia alimentam um protofascismo que se expressa tanto na
estigmatização dos beneficiários de programas sociais, como o
Bolsa-Família, como também nas ameaças a figuras e simpatizantes do PT
em espaços públicos. A misoginia é outra manifestação deste processo
alimentado pelo frenesi anti-pestista. Dilma tem sido criticada não
apenas por ser presidenta, mas por ser mulher “severa”, intransigente”,
inflexíveis”, características consideradas positivas em chefes de Estado
do sexo masculino. Movimentos como o “Vem pra rua”, mobilizados em
torno do perigoso patriotismo verde-amarelo, e o panelaço contra a
presidenta Dilma expressam também o autoritarismo e a intolerância que
chocam o ovo da serpente.
Sofisticação tecnológica e canalhice editorial
Os desdobramentos da Operação Lava Jato podem até comprovar as
“sentenças” já decretadas pela mídia corporativa. Pode ser que as
investigações tragam à tona novos escândalos envolvendo figuras
proeminentes do Partido dos Trabalhadores. Ainda assim, Lula da Silva já
é um fenômeno por sobreviver a uma máquina de guerra brutal, sem regras
mínimas de combate. Vários nomes do PT foram e talvez sejam condenados,
mas Lula, com seu capital político, continua sendo o alvo principal da
saga golpista. Dificilmente Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor,
sobreviveria a tamanha voracidade midiática. Imagine, se puder, o tempo
de sobrevida política de alguns opositores de “tudo que está aí” se a
imprensa dedicasse tamanha diligência para desvendar suas práticas
predatórias? Um dos papéis fundamentais da atividade jornalística é
fazer perguntas. No entanto, a imprensa se recusa a fazer algumas
perguntas cruciais para entendermos a corrupção no Brasil porque ela
teria que se colocar no lugar incômodo de questionar suas próprias
práticas delinquenciais não apenas no jornalismo criminoso, mas também
no campo fiscal, como os escândalos da Fifa, do HSBC e de fraudes na
Receita Federal.
Os estudiosos da mídia podem discordar sobre o papel dos meios na
construção de consensos, aquela velha discussão ainda não resolvida
entre o que Umberto Eco chamou de “apocalípticos e integrados”. As
quatro vitórias petistas – com o peso das articulação políticas nas
redes sociais – seriam um exemplo de que os consumidores de notícias não
são agentes passivos. Eles estrategicamente negociam, recusam, dão
outro significado, e principalmente produzem contra-narrativas.
Talvez estejamos entre os “apocalípticos”, mas o eco das palavras
“mensalão”, “corrupção”, “Petrobrás” e “Lava Jato”, incessantemente
repetidas, criou uma rede de significados na qual o Partido dos
Trabalhadores está aprisionado. Se por um lado os eleitores do PT são
discursivamente associados à miséria, ao voto de cabresto e ao
analfabetismo político – Diogo Mainardi, Cristina Lobo e Merval Pereira
merecem crédito aqui –, por outro, a mídia fomenta e dá vazão às
frustrações de uma classe média ressentida com as (ainda que precárias)
conquistas sociais dos últimos doze anos. Os espaços quase
monocromáticos da classe média branca começaram a ser parcamente
diversificados em função de programas sociais que começaram a arranhar a
hierarquia perversa do país. Nesse âmbito, para tal crime não há
absolvição.
Na verdade, a narrativa midiática de estigmatização dos eleitores do
PT não vem de hoje. Ela começou lá atrás e talvez tenha ficado mais
pornográfica nas últimas eleições quando o Nordeste foi
“responsabilizado” pela eleição de Dilma, ainda que Aécio Neves tenha
perdido em seu estado natal e no Rio de Janeiro, seu estado de
residência. O movimento de ruptura democrática estimulado pelas forças
derrotadas nas eleições de 2014 revela não apenas uma vocação
autoritária, como também uma terminante recusa a aceitar que na
democracia o voto de membros de diferentes classes sociais tem o mesmo
valor. O esforço midiático de demonização do PT, aliado ao impopular
ajuste fiscal, se reflete nos índices perigosíssimos de aprovação do
governo Dilma Rousseff, criando terreno fértil para a supuração de
articulações políticas que almejam o impeachment.
Se as eleições de 2014 não foram suficientemente “sofridas” para
levar a presidenta Dilma Rousseff a repensar as estratégias de
comunicação do seu governo, elas pelo menos serviram para deixar os
campos muito mais demarcados no que diz respeito à mídia corporativa: a
prática jornalística, como trabalho de investigação criteriosa, checagem
de fontes e equilíbrio de perspectivas, foi definitivamente abandonada.
O que temos agora é a criminosa e calculada produção de verdades, sem
consequências para as empresas jornalísticas. Uma mera nota de rodapé,
na edição seguinte, já faz parte do cálculo do jornalismo delinquente.
Quiçá o momento presente não seja tão mau para as forças progressistas
do país. A mídia corporativa está desnuda: sofisticação tecnológica e
canalhice editorial.
***
originalmente publicado em Observatório da Imprensa, Disponível aqui: http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/a-grande-midia-e-o-odio-ao-pt/