1 de out. de 2010

Para quem vai o voto negro?

Por Reginaldo Bispo
Coordenador do MNU

O tratamento dispensado por deputados, senadores, partidos e governo [leia Seppir] bancando e aprovando sem luta o Estatuto da Igualdade Racial do DEM, com a oposição da maioria das lideranças e do Movimento Negro Organizado brasileiro, coloca para negras e negros uma questão essencial: Porque deveríamos dar nosso voto aqueles que agem contra nossa vontade? Porque deveríamos favorecer a criação dessa empresa pessoal que é o mandato parlamentar? Por que deveríamos eleger deputados, senadores, governadores e presidentes, se os mesmos ignoram e desprezam as condições reais de vida e direitos da população negra, pobre e trabalhadora?

-O plano Nacional de Segurança Publica dos governos Lula/Serra/PMDB/PSB/DEM/PT está promovendo um verdadeiro genocídio da juventude Negra. Em cada 04 pessoas mortas pela policia, 03 são negros e estão na faixa de 15 a 24 anos e 01 vitima é branca, se encontrando em uma faixa etária elástica, de mais de 60 anos.

-A titulação das Terras Quilombolas foi irrisória nos últimos 08 anos. O Inesc acaba de divulgar relatório no qual denuncia que nos últimos 05 anos, foram gastos menos de 20% da verba orçada para as titulações, em um frontal desrespeito e pouco caso com as populações negras tradicionais. Entre janeiro de 2008 e junho de 2010, o governo federal titulou apenas 02 quilombos no RS, segundo o mesmo relatório, não suplantando 60 as titulações do governo Lula, dos quase 5000 quilombos em todo o Brasil.

-Recentemente a mídia divulgou que 72% das quase quarenta mil vítimas de trabalho escravo, no campo e na cidade, são negros. Isto espelha a violência e o atraso que vive nosso povo, vitimas da ganância de ruralistas e capitalistas criminosos neste país. Qual o papel de políticos e de juízes nesta questão. Recentemente a senadora Kátia Abreu do DEM-GO, parceira do Demóstenes Torres, defendeu publicamente os modernos escravistas.

-A Lei 10.639 não é implementada por falta de interesse político dos governos federal, estaduais e municipais. O que fazem vereadores, deputados e senadores?

-O Plano Nacional Contra a Discriminação Religiosa foi engavetado pelo governo, a pedido de evangélicos. Que tem pra nos dizer sobre isso a candidata Dilma?

-As cotas para negros, nas universidades, no serviço publico, na propaganda e nos partidos políticos, estão ameaçadas com a ADIN – Ação Direta de Inconstitucionalidade do DEM/PMDB, e com a Sanção do Estatuto da igualdade Racial pelo presidente Lula. O que farão deputados, senadores, o governo e os ministros do STF, sobre a questão?

-O racismo é mantido como uma arma para embarreirar as oportunidades de trabalho, melhores posições e salários, moradia, saúde, educação e condições de vida para negras e negros. Que tem a dizer sobre isso os candidatos?

O voto no Lula e no Serra em 2002 e 2006, não melhorou a vida dos negros, da população pobre e trabalhadora. Ao contrario, carreou verdadeiras fortunas para as montadoras de carros, para os banqueiros, para a indústria de eletro-doméstico e para os ruralistas. Sem duvida, melhorando a vida dos políticos, dos empresários, dos altos funcionários dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Aumentando as distancias e as desigualdades entre os mais ricos e a população mais pobre. É só observar que o dinheiro compra menos a cada mês.

Qual o programa de governo interessa aos segmentos populares e marginalizados da População? Que democracia quer os trabalhadores e os pobres do Brasil, o direito de votar e passar necessidade? Ou a democratização das decisões, acabando com o fórum privilegiado para militares, policiais militares, políticos, juízes e governantes corruptos? Revogando mandatos, e mandando para a prisão os ladrões do dinheiro do povo e os sonegadores, e os funcionários público civil ou militar que cometam crimes contra o cidadão desarmado.

-A reforma Agrária, um dos maiores tabus no Brasil beneficia a população do campo e da cidade. Porque o governo não a implementa? Porque em 08 anos assentou apenas 1/3 do prometido? Seriam os camponeses pobres prioridade do governo? Estariam eles interessados no bem estar daqueles brasileiros e no barateamento dos preços dos alimentos? E Quanto a questão do tamanho da propriedade da terra ter no máximo 1000 hectares, uma luta antiga dos Companheiros do MST, para uma efetiva Reforma Agrária e Urbana, pois a segunda e consecutiva da efetiva produção da primeira questão, a desconcentração de terra no Brasil.

A Regularização Fundiária dos Territórios Negros Urbanos sejam Quilombolas ou de Matriz Africana, é um desafio para consolidação de uma visceral transformação e mudança social nos grandes centros urbanos

-A corrupção na política financia e inflaciona as campanhas eleitorais, custando muito caro ao povo. Reduz a capacidade de investimentos, a quantidade e a qualidade dos serviços públicos oferecidos a população. Inviabilizam as candidaturas de lideranças populares, impedindo-os de participar do pleito de defendendo projetos populares. Qual a Reforma Política e Eleitoral quer o povo para o Brasil? Defendemos o financiamento público de campanha com cotas para as representações negras políticas como forma de Reparação ao Povo Negro no Parlamento Brasileiro, e com rígidos mecanismos de controle social e com base nos direitos civis, sociais, econômicos e políticos da população negra do país que representa mais de 50% da população brasileira.

-No Brasil, quem paga imposto é assalariado. O imposto de renda é descontado do salário, não há como fugir do leão. Os impostos sobre todo tipo de produtos, pesam mis no bolso do trabalhador que do empresário e do rico. Quanto mais risco, menos impostos. Os ricos gastam seu dinheiro com supérfluos, produtos importados, aquisição de patrimônio, carrões, artes e viagem ao exterior. Geralmente não pagam impostos sobre essa acumulação e consumo. Os pobres por seu turno, não tem opção, pagam antecipado. O imposto é a forma de transferir renda e diminuir a pobreza. Que reforma tributária queremos para esse país se tornar mais justo, com todo seu povo?

-A política econômica do governo convoca o povo ao endividamento e ao consumo, contraditoriamente, aumenta os juros para barrar o mesmo consumo. Ainda que muitos estudos de órgão competentes como o IPEA e o DIEESE expressem uma melhora sensível nos indicadores sociais brasileiros, quanto ao aumento de renda, poder de compra, geração de empregos, grande parte, são resultados de políticas de transferência de renda, as quais resolvem parte do problema, muitas vezes utilizando os programas de governo para fins essencialmente eleitoreiros.

Aumentando a corrupção e os currais eleitorais e coligações cada vez mais espúrias para de manutenção do status-quo e de dominação econômica por parte dos grandes concentradores da renda no campo de na cidade.

O Brasil não possui um projeto de política de desenvolvimento para contemplar a inclusão com trabalho e salários decentes o seu povo. Promovendo justiça social, igualdade, distribuição de renda e boas condições de moradia, saúde, educação, saneamento, transporte a toda a população. Ao contrario disso, é cada vez maior a diferença entre ricos e pobres.

-A justiça no Brasil é lenta, parcial e cara, coisa de rico. De quem tem dinheiro e bons advogados. O pobre mofa na prisão por pequenos delitos. A justiça, a política, e a economia no Brasil estão voltadas para favorecer as classes privilegiadas, seus agregados e gerentes. Os juízes (como os políticos) definem seus próprios salários, seus cargos são vitalícios, decidem sempre a favor dos poderosos. É preciso democratizar a justiça com controle da sociedade. Que Justiça quer nosso povo?

-As elites brasileiras são as mais nefastas do mundo. Só pensam em explorar os recursos naturais do país e seu povo, transformando o resultado disso, em enriquecimento pessoal. Agora mesmo, atuam para aprovar uma lei que violenta e degrada os recursos naturais e a preservação dos rios e das matas. Comprometendo a natureza e o planeta para as próximas gerações, em nome de lucros coorporativos sem nenhum beneficio social. A poucos meses o congresso legalizou milhares terras publicas griladas por latifundiários e seus jagunços, com a expulsão e assassinatos de trabalhadores sem terra, índios e quilombolas.

-O Brasil e suas elites não estão interessados em um projeto de nação que beneficie e faça crescer os direitos e a melhoria das condições de vida do povo e dos direitos da cidadania. Continuam concentrar seus projetos no enriquecimento das elites, veja a polemica recente sobre a exploração do pré-sal, que as elites e os políticos preferem entregar aos interesses privados e as empresas estrangeiras, com as quais mantém seus contratos, de modo a beneficiar-se, a empregar esses recursos em políticas que beneficiem todo o povo brasileiro. Qual projeto Político de Nação queremos para o país?

Esses são alguns pontos que suscitam a reflexão dos brasileiros neste momento eleitoral. Que candidato, ou candidatos, a deputado, senador, governador e presidente se comprometeria com essas questões que serão determinantes para o futuro do país de nossos filhos e netos?

As eleições passam, o racismo, a opressão, a violência e a miséria permanecem. É nossa responsabilidade pensar no legado que deixaremos para as futuras gerações, ou deixamos que os espertos e oportunistas se locupletem das riquezas da nação e de todo o povo? Os políticos e os partidos se comprometem com o que? Como? Mereceriam nossos votos? Reginaldo Bispo-Coordenador Nacional de Organização do MNU -Movimento Negro Unificado

27 de set. de 2010

As 'armações monstruosas' e o jornalismo criminoso da Folha de S. Paulo

MONSTRUOSA ARMAÇÃO
Brasília Confidencial

O filme “A Vila” não é lá grande coisa, mas seu cenário é cheio de metáforas: um lugarejo de onde ninguém ousa sair por medo de monstros que habitariam a floresta que o cerca. Alguém disse que os monstros existem, mas eles nunca foram vistos e ninguém tem coragem de procurar a verdade.

Há exatos três meses, em 12 de junho, o maior jornal do país publicou uma notícia que, embora não citasse nenhuma fonte, era taxativa: um “grupo de inteligência” do comitê eleitoral de Dilma Rousseff usara dados fiscais sigilosos do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, na montagem de um dossiê contra Serra. Descobriu-se depois que outros sigilos teriam sido quebrados – da filha de Serra, do genro dele, de mais dois tucanos de alta plumagem – e ficou estabelecido a partir daí, como fato incontestável, que todos os dados acabaram fazendo parte do mesmo dossiê.

Assim como as feras da floresta de “A Vila”, os monstros que habitariam o submundo da campanha de Dilma nunca foram vistos em ação. Não há provas de que algum crime tenha sido cometido. Não há sequer indícios de que alguma ação clandestina tenha sido praticada. E praticamente ninguém teve coragem de procurar a verdade.

Até que...A própria Folha de S. Paulo, autora da denúncia, publicou ontem, sexta-feira, uma notícia que desmente, uma por uma, suas acusações.

Depois de 90 dias em que tratou as contestações de Dilma e do PT com arrogância, a Folha confessa, em texto sem assinatura, produzida pela sucursal de Brasília: o comitê de Dilma não produziu um dossiê; apenas teve acesso a um dossiê feito pelo PT de São Paulo há cinco anos atrás. Trata-se, na verdade, de uma papelada de cem páginas escrita pelo partido para solicitar que o Ministério Público e a Procuradoria da República investigassem possíveis irregularidades em privatizações tucanas, que poderiam ter beneficiado José Serra, sua filha e seu genro.

A Folha informa que o material que teria sido produzido pelo suposto “grupo de inteligência” da campanha de Dilma “é idêntico ao que o partido havia encaminhando cinco anos antes ao MP”. O jornal ainda confessa que as cem páginas produzidas pelo PT paulista resultam de “pesquisa em cartórios de registros de documentos, na Junta Comercial de São Paulo e em sites na Internet”. E mais: reconhece que “não há nesse lote de papéis indício de quebra de sigilo bancário ou fiscal”.

Não há monstros na floresta. Apenas mentira e medo para assustar os “moradores da Vila”. A Folha também não se retrata. Limita-se a noticiar “naturalmente” que MENTIU.

Durante 90 dias os grandes jornais e revistas adotaram as acusações da Folha como postulado e ponto de partida para a cobertura dos vazamentos de dados da Receita. Nos últimos 20 dias, praticamente não se falou em outra coisa, inclusive no Jornal Nacional, que tem dedicado blocos inteiros ao assunto.

Alguém vai pagar por isso? No momento, quem paga é o eleitor, privado de informações isentas da impresa. No dia 3 de outubro, a conta finalmente poderá ser jogada na mesa da oposição. E a Vila toda, poderá, enfim, passear livremente na Floresta.

Sem medo...Crê-se.

BRASÍLIA CONFIDENCIALwww.brasiliaconfidencial.inf.br

8 de set. de 2010

Minhas razões para não votar em Alckmin

Hesitei por muito tempo para escrever estas notas até porque há tempos perdi a inocência com o partido que amei. Mas minha esperança era que a campanha do Mercadente fosse mais corajosa e incisiva na discussão sobre os problemas que afetam todos nós aqui em São Paulo. A campanha tem sido pobre no que diz respeito ao debate de temas tão caros a nós. Falta mais firmeza em chamar os 16 anos do PSBD em São Paulo pelo seu nome mais apropriado: um desastre político, social e humano. Até mesmo as 13 propostas para São Paulo, apresentadas pelo candidato do PT carecem de mais vigor. Ouviu os movimentos? Ouviu as associações de classe, as igrejas, as gentes das periferias urbanas? São Paulo merece - e Mercadante tem competência para oferecer - propostas melhores.

Havia um tempo em que o anel de tucum no dedo selava o compromisso cristão com a justiça social. Era (e é) uma característica daquela militância social comprometida com os mais pobres, doa em quem doer. É pedir muito para Aloisio Mercadante no contexto em que a pobreza da imaginação política é uma doença que acomete as nossas melhores apostas políticas. Mas o anel de tucum no dedo do senador bem que poderia ser um convite às origens. Ao deixar de fora as questões mais espinhosas de São Paulo - como a violência policial contra os negros, o complexo industrial prisional, a privatização dos hospitais públicos, o estado como negócio privado, entre outros - Mercadante perde a oportunidade de reunir uma frente ampla contra uma gente que continua imbatível em sua insensibilidade humana.

Isso dito, 13 razões para não votar em Geraldo Alckmin:

1 - POLÍCIA E JUVENTUDE NEGRA - A polícia paulista é uma das que mais mata no país. Nos últimos dez anos foram quase 6 mil mortes, a maioria de jovens negros e pobres das periferias de São Paulo, Baixada Santista, Campinas; (O PCB tentou fazer o debate via Odair dias, mas a Justiça concedeu liminar ao PSDB para retirar campanha do ar);

2 - SISTEMA PRISIONAL - São Paulo possui o maior contigente de pessoas encarceradas do país. No governo do PSDB houve um aumento de quase 200% na taxa de encarceramento, passando de 56 mil em 1996 para 167 mil em 2010. A maioria dos presos são jovens negros e pobres (só PSOL abordou o assunto até o momento);

3 - RDD - Para combater a criminalidade, o governo paulista incrementou uma série de medidas que atentam contra o estado democrático de direitos. O Regime Disciplinar Diferenciado faz parte do pacote;

4 - POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA - O número de pessoas em situação de rua no governo DEM-PSDB mais do que triplicou. Nem a Prefeitura de São Paulo sabe ao certo quantas pessoas moram nas ruas da capital. Os movimentos sociais estimam que haja 15 mil; A política pública para a população em situação de rua é a distribuição de sopa e/ou a polícia;

5 - CAOS NA SAÚDE - Ao contrário do que a propaganda diz, o sistema de saúde em São Paulo piora a cada dia. Hemodiálise, quimioterapia, consultas médicas.....média de seis meses de espera;

6 - PRIVATIZAÇÕES - Os hospitais públicos estão sendo entregues à iniciativa privada por meio de transferência de recursos. São as grandes empresas médicas como Albert Eistein, Santa Marcelina, Siro Libanês que estam lucrando. Estrategia de atendimento: porta-fechada;

7 - FALÈNCIA NA EDUCAÇÃO PÚBLICA - São Paulo registra os piores índices na avaliação da educação pública de nível fundamental-médio. O desempenho pífio da educação pública em São Paulo foi explicada pelo PSDB como culpa dos nordestinos que baixariam a média paulista;

8 - SALÁRIO DOS PROFESSORES - O governo do PSDB paga mal os seus professores e trata-os como bandidos. Quem não se lembra das cenas de violência contra as manifestações dos professores por melhores salários?

9 - HABITAÇÃO - A população das áreas de risco em São Paulo recebe da Prefeitura R$ 5 mil para desocupar a área. O dinheiro dá apenas para comprar um outro barraco em outra área de risco;

10 - ENCHENTES - O governo PSDB-DEM gasta mais com propaganda do que com a manutenção dos piscinões e a contenção de encostas. O último crime: a população do Jardim Romano (na capital) ficou mais de um mês embaixo d'àgua;

11 - CRACOLÂNDIA - Cracolândia não é apenas a região central de Sampa. A cidade inteira virou uma cracolândia! Faltam clínicas de atendimento. A política de combate ás drogas tem sido a prisão ou a morte;

12 - COTAS NAS UNIVERSIDADES - São Paulo é um dos poucos estados brasileiros a não adotar um programa de ações afirmativas nas universidades. As universidades paulistas são brancas e ricas. USP e Unicamp torraram milhões de reais em programas de inclusão sem impacto na redução das desigualdades educacionais entre pobres e ricos, negros e brancos;

13 - AS POLÍTICAS PÚBLICAS DO PSDB: O PSDB reforça o caráter assistencialista, ao invés de valorizar a perspectiva dos direitos. Olhe só quais são as políticas públicas deles:


TRANSFERÊNCIA DE RENDA = Cesta básica, leve leite

SEGURANÇA ALIMENTAR = Bom prato

JUVENTUDE POBRE E NEGRA = Polícia, prisão e morte

POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA = Sopa, albergue, vale-passagem para o nordeste

EDUCAÇÃO = aprovação automática

SAÚDE: mutirão (feira da saúde)

SEGURANÇA PÚBLICA = 'resistência seguida de morte'

INCLUSÃO DIGITAL = Acessa São Paulo ( 1 hora de acesso nos poupa-tempos)


Chupa essa manga!

Jaime

17 de jun. de 2010

Ouro de tolos: O Estatuto da Igualdade Racial e a submissão política negra II

Por Jaime Alves


O Senado Federal aprovou no último dia 16 de junho a versão demostiniana do Estatuto da Igualdade Racial. Trata-se de um texto indigesto apenas palatável para aquela fatia minúscula do movimento negro que, protegida pelo manto clerical ou de olho em alguns dividendos para as eleições 2010, se submete (e a todos nós) a um constrangimento histórico. Depois de dez anos de luta, e para salvar algumas plataformas político-partidárias no apagar das luzes, um acórdão retirou as propostas mais substanciais do documento como: a reserva de vagas nas universidades públicas, as políticas de saúde específicas para a comunidade negra e a demarcação das terras quilombolas. Os três tópicos em si já representam a bandeira de lutas mais significativa do movimento negro porque elas são resultado de um acumulado histórico de reivindicações. Em nome de quem a meia dúzia de gatos pingados endossou tão indecente proposta? A quem interessa um Estatuto que já nasce morto? O que a aprovação do Estatuto light tem a nos dizer sobre os processos de submissão política negra nos últimos anos? Por que a pressa em aprovar um Estatuto vazio de propostas?


Sem querer generalizar a experiência pessoal para o conjunto dos movimentos negros, aqui vai um palpite: nos últimos oito anos, militando em um modelo de movimento onguista ‘particular’ em São Paulo, “aprendi” que agora é hora de negociar, que a história chegou ao fim, que já não há espaço para sustentar um projeto radical de transformação social, de que a palavra de ordem agora é ocupar menos a rua e fazer mais lobby político nos bastidores do poder, que ao invés das ruas, devemos ocupar a ponte aérea, os gabinetes. Aprendi que a palavra ‘raça’ deve ser retirada do vocabulário e ser substituída pelo eufemismo ‘diversidade’, que a palavra ‘reparação’ ou ‘justiça racial’ dever ser substituída pela mais palatável ‘igualdade racial’.


É neste contexto de pobreza da imaginação política que a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial deve ser entendido. A palavra “radical” em certos círculos tomou uma conotação tão estranha e tão vazia de significados que soa com a mesma intensidade da palavra comunista no período da guerra-fria. Isso para não falar na palavra “utopia”, utopia negra, vista como um sacrilégio. E olhe que não falo de utopia como ideal irrealizável, mas como sonho e luta de transformação radical para deslocar as bases de poder na nossa sociedade.


Pois bem, da maneira como foi aprovado, o Estatuto representa uma carta de intenções genéricas que diz pouco ou quase nada sobre a luta do povo negro, mas que diz muito sobre o momento histórico em que vivemos. No entanto, o que mais me angustia no Estatuto aprovado não é o corte do senador Demóstenes Torres (ex-PFL-GO). O senador fala de um lugar racialmente privilegiado e incorrigível. Está defendendo os interesses do seu grupo. E disso não há duvida!


O que assusta é que, em um momento de refluxo c da luta social, em um momento em que os movimentos sociais da cidade e do campo sofrem uma aprofunda criminalização, quando intensifica o massacre da juventude negra nas periferias urbanas, algumas ‘lideranças’ – supostamente inspiradas por Zumbi e pelo espírito santo – endossam uma proposta indecente como a que agora temos. Admito que talvez eu esteja deprimido e admito que estar deprimido é um privilégio quando tantos estão sobrevivendo no inferno. Mas talvez devêssemos nos perguntar: por que a recusa fatalista da utopia negra? Em nome de quem o Estatuto foi negociado? Não em meu nome!

23 de mai. de 2010

Estado Terror: Juventude negra e violência policial em São Paulo


José Carlos Júnior, Roberto Aparecido Ferreira, Eduardo Pinheiros dos Santos , Alexandre Menezes dos Santos. O que há em comum na história de vida deles? Negros, pobres, jovens e moradoras da periferia, todos eles foram assassinados por policiais militares. Apesar da PM insistir que são atos isolados, a periferia paulistana está cheia de tragédias humanas, cheia de mães que choram seus mortos na interminável violência policial.

Segundo dados do Mapa da Violência, da Unesco, os jovens negros têm 72% a mais de chances de serem mortos por armas de fogo. Em alguns estados, como Paraíba e Alagoas a taxa de homicídio entre eles é de mais de 300%. O mais preocupante é que apesar dos números, não há uma política pública de proteção à vida dos jovens negros urbanos. Em São Paulo, o que se vê é exatamente o contrário. A polícia paulista segue sendo uma das mais violentas do país.

Só para se ter uma idéia, entre 2003 e 2009 as polícias dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo mataram juntas um total de mais de 11.000 pessoas, a maioria sendo jovens negros. Em São Paulo, o artifício das “resistências seguidas de morte” são uma verdadeira carta-branca para a polícia seguir matando. De acordo com a Human Rights Watch, “nos últimos cinco anos, houve mais mortes em supostos episódios de “resistência seguida de morte” no estado de São Paulo (2.176 mortes) do que mortes cometidas pela polícia em toda a África do Sul (1.623), um país com taxa de homicídio muito superior a São Paulo”.

Nos solidarizamos com as mães dos jovens negros assassinados pela PM, reconhecemos a conduta dos bons policiais e cobramos providências do governo do estado na mudança de orientação da PM e na garantia de políticas públicas para nossa gente. Afinal, a violência policial é a outra face da mesma moeda: as políticas de exclusão que condenam a juventude negra e pobre ao desemprego, à violência e à falta de acesso à universidade pública. “Estamos por nossa própria conta...”.

A foto acima, da Anistia Internacional, é referente à operação militar em uma favela do Rio de Janeiro. Lá também se repete o padrão sistemático de mortes.

28 de abr. de 2010

Facismo social e violência cotidiana na Pérola do Atlântico

Jaime Amparo-Alves*

Quem conhece a geografia do Guarujá, sabe que a cidade, vista de cima, tem o formato de um dragão. O que o turista desavisado, que chega pela rodovia Piaçaguera e se hospeda na orla marítima, não sabe é que o dragão mitológico que dá forma à Ilha pode ser também uma metáfora das condições cruéis de existência dos milhares de miseráveis que sobrevivem nas encostas dos morros ou nos manguezais que abrigam as mais de setenta favelas do município.

Sob todos os ângulos, Guarujá é um desastre ambiental e humano. Mais do que isso, a cidade é uma metáfora do Brasil cindido, fraturado, dividido. Talvez em nenhum outro lugar o abismo social entre brancos e negros, ricos e pobres assuma uma dimensão tão profunda e tão cruel.

Isolados da cidade formal, os pobres sobrevivem graças à teimosia. Andam sob duas rodas porque o transporte coletivo tem preço exorbitante e é monopólio autorizado pelo poder público; vivem nas áreas de risco porque as áreas nobres são propriedade dos turistas ou da elite local; morrem nas filas das policlínicas porque o único hospital que atende pelo SUS está afundado em dívidas. Em Guarujá, nada é absurdo. Até mesmo as praias têm dono. Por iniciativa oficial, os turistas de um dia – aqueles que são vítimas da mesma elite cínica que desce a serra para humilhar os pobres de lá – são impedidos de entrar na cidade. “É que são farofeiros e só trazem problemas para o município”, me diz um amigo.

Não há nada de novo na atual onda de violência que aterroriza os turistas e dá o combustível para a paranóia moral da mídia sensacionalista. Se entendermos a violência como um fenômeno social multifacetado - e não apenas como um ato isolado que tem no homicídio sua manifestação total - veremos que no Guarujá as suas vítimas preferenciais têm sido historicamente os pobres e negros. Para eles, as violências em suas formas física, estrutural e simbólica têm sido uma realidade cotidiana.

O problema do Guarujá não se resolverá com políticas de segurança pública militarizada que têm como filosofia a eliminação dos cidadãos ‘indesejáveis’, como nos quer fazer crer a filosofia do medo disseminada pela mídia. O problema ali é que a cidade tem Estado penal demais e estado social de menos. Na verdade, a polícia tem sido a única política pública para a juventude negra e pobre segregada nos morros e mangues da Pérola do Atlântico. São eles, os jovens negros e pobres, os alvos preferenciais das políticas de tolerância zero que antecedem os feriados prolongados e as temporadas de férias. A palavra de ordem é “tirar de circulação” para que os turistas possam desfrutar a cidade em ‘paz’. A paz para quem?

O principal combustível da atual onda de violência no município não é o PCC, mas sim o fascismo social que divide a cidade entre os bons e os maus, os cidadãos de 1ª, 2ª e 3ª categoria, os do morro e os do asfalto, os dos barracos e os dos condomínios fechados, os sem teto e os donos das praias públicas. Os policiais militares, ainda que queiram, não poderão resolver o que o poder público insiste em esconder debaixo do tapete: o terreno fértil das desigualdades estruturais.

Mas a elite guarujaense pode ficar sossegada. Este não é o fim do mundo para os seus negócios. Até a temporada de férias, o turista terá esquecido o drama dos miseráveis que fazem a cidade e terá chegado com seus dólares. Andando na orla ou no restaurante de um luxuoso hotel que ocupa o espaço público na praia da enseada, uma elite cínica e perversa desfilará charme e crueldade no seu exercício predileto de humilhar os pobres. A violência que hoje assusta terá ficado para trás.

Enquanto isso, ali no alto do morro da Vila Bahiana, à altura da Rua Colômbia, uma pedra gigante teima em anunciar uma outra tragédia iminente. Fecho os olhos e vejo corpos esmagados. Mas isso não tira o sono de ninguém. Buon Appetito!

*jornalista e pesquisador pela Universidade do Texas, em Austin

15 de abr. de 2010

O Haiti nosso de cada dia

Rio: um desastre humano e ambiental
Certamente você viu pela TV a tragédia que assolou o Rio de Janeiro. O que a mídia não mostrou foi a cor dos mortos. Afinal, 80% dos moradores das favelas cariocas são negros - a propósito, o mesmo padrão de segregação residencial que se repete nos morros de Salvador, nos mangues de Recife ou na hiper-periferia paulistana. A população negra da ‘cidade maravilhosa’ contou e continua sepultando suas vítimas. A culpa é da natureza, dizem os papagaios e cães-de-guarda do Cidadão Kane. Como no Haiti, desnaturalizar o desastre é a nossa tarefa! Afinal,a tragédia já faz parte da nossa experiência e será só questão de dias para sua repetição. Em alguma encosta, uma mãe negra perde o sono sempre que começa a chover....ou quando a polícia sobe o morro.