28 de abr. de 2010

Facismo social e violência cotidiana na Pérola do Atlântico

Jaime Amparo-Alves*

Quem conhece a geografia do Guarujá, sabe que a cidade, vista de cima, tem o formato de um dragão. O que o turista desavisado, que chega pela rodovia Piaçaguera e se hospeda na orla marítima, não sabe é que o dragão mitológico que dá forma à Ilha pode ser também uma metáfora das condições cruéis de existência dos milhares de miseráveis que sobrevivem nas encostas dos morros ou nos manguezais que abrigam as mais de setenta favelas do município.

Sob todos os ângulos, Guarujá é um desastre ambiental e humano. Mais do que isso, a cidade é uma metáfora do Brasil cindido, fraturado, dividido. Talvez em nenhum outro lugar o abismo social entre brancos e negros, ricos e pobres assuma uma dimensão tão profunda e tão cruel.

Isolados da cidade formal, os pobres sobrevivem graças à teimosia. Andam sob duas rodas porque o transporte coletivo tem preço exorbitante e é monopólio autorizado pelo poder público; vivem nas áreas de risco porque as áreas nobres são propriedade dos turistas ou da elite local; morrem nas filas das policlínicas porque o único hospital que atende pelo SUS está afundado em dívidas. Em Guarujá, nada é absurdo. Até mesmo as praias têm dono. Por iniciativa oficial, os turistas de um dia – aqueles que são vítimas da mesma elite cínica que desce a serra para humilhar os pobres de lá – são impedidos de entrar na cidade. “É que são farofeiros e só trazem problemas para o município”, me diz um amigo.

Não há nada de novo na atual onda de violência que aterroriza os turistas e dá o combustível para a paranóia moral da mídia sensacionalista. Se entendermos a violência como um fenômeno social multifacetado - e não apenas como um ato isolado que tem no homicídio sua manifestação total - veremos que no Guarujá as suas vítimas preferenciais têm sido historicamente os pobres e negros. Para eles, as violências em suas formas física, estrutural e simbólica têm sido uma realidade cotidiana.

O problema do Guarujá não se resolverá com políticas de segurança pública militarizada que têm como filosofia a eliminação dos cidadãos ‘indesejáveis’, como nos quer fazer crer a filosofia do medo disseminada pela mídia. O problema ali é que a cidade tem Estado penal demais e estado social de menos. Na verdade, a polícia tem sido a única política pública para a juventude negra e pobre segregada nos morros e mangues da Pérola do Atlântico. São eles, os jovens negros e pobres, os alvos preferenciais das políticas de tolerância zero que antecedem os feriados prolongados e as temporadas de férias. A palavra de ordem é “tirar de circulação” para que os turistas possam desfrutar a cidade em ‘paz’. A paz para quem?

O principal combustível da atual onda de violência no município não é o PCC, mas sim o fascismo social que divide a cidade entre os bons e os maus, os cidadãos de 1ª, 2ª e 3ª categoria, os do morro e os do asfalto, os dos barracos e os dos condomínios fechados, os sem teto e os donos das praias públicas. Os policiais militares, ainda que queiram, não poderão resolver o que o poder público insiste em esconder debaixo do tapete: o terreno fértil das desigualdades estruturais.

Mas a elite guarujaense pode ficar sossegada. Este não é o fim do mundo para os seus negócios. Até a temporada de férias, o turista terá esquecido o drama dos miseráveis que fazem a cidade e terá chegado com seus dólares. Andando na orla ou no restaurante de um luxuoso hotel que ocupa o espaço público na praia da enseada, uma elite cínica e perversa desfilará charme e crueldade no seu exercício predileto de humilhar os pobres. A violência que hoje assusta terá ficado para trás.

Enquanto isso, ali no alto do morro da Vila Bahiana, à altura da Rua Colômbia, uma pedra gigante teima em anunciar uma outra tragédia iminente. Fecho os olhos e vejo corpos esmagados. Mas isso não tira o sono de ninguém. Buon Appetito!

*jornalista e pesquisador pela Universidade do Texas, em Austin

15 de abr. de 2010

O Haiti nosso de cada dia

Rio: um desastre humano e ambiental
Certamente você viu pela TV a tragédia que assolou o Rio de Janeiro. O que a mídia não mostrou foi a cor dos mortos. Afinal, 80% dos moradores das favelas cariocas são negros - a propósito, o mesmo padrão de segregação residencial que se repete nos morros de Salvador, nos mangues de Recife ou na hiper-periferia paulistana. A população negra da ‘cidade maravilhosa’ contou e continua sepultando suas vítimas. A culpa é da natureza, dizem os papagaios e cães-de-guarda do Cidadão Kane. Como no Haiti, desnaturalizar o desastre é a nossa tarefa! Afinal,a tragédia já faz parte da nossa experiência e será só questão de dias para sua repetição. Em alguma encosta, uma mãe negra perde o sono sempre que começa a chover....ou quando a polícia sobe o morro.

30 de mar. de 2010

Quem tem medo de raça? A paranóia branca e as ações afirmativas no Brasil.

Jaime Amparo-Alves

Nada de original. Em um artigo publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo no dia 18 de fevereiro, intitulado “Fora da Lei”, Demétrio Magnoli reproduz com um atraso de dez anos a crítica feita por Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant sobre uma suposta importação do modelo de relações raciais estadunisense pelo movimento negro brasileiro e seus intelectuais. Em Sobre as artimanhas da razão imperialista os autores acusavam os intelectuais negros estadunidenses de imperialistas culturais – a crítica é direcionada principalmente, embora não exclusiva, ao livro de Michael Hanchard ‘Orfeu e o poder’ (2001) - e a emergente academia negra norte-americana de impor uma falsa universalização do racismo aos países do chamado terceiro mundo.

Haveria um certo excepcionalismo brasileiro no campo das relações raciais que faria o Brasil ser diferente. Ainda, os autores rotulavam o intercambio – cada vez mais crescente – entre intelectuais negros dos dois países de tática estratégica para a imposição de um modelo bi-polar de relações raciais só presente na America do Norte. As agencias de financiamento como a Fundação Ford aparecem na critica como o exemplo mais concreto do imperialismo cultural disfarçado de intercambio acadêmico.

O debate que se seguiu à crítica de Bourdieu e Wacquant já é conhecido. John French, Edward Telles, Jocélio Telles, Michael Hanchard, entre outros, responderam dando o merecido crédito à autonomia intelectual negra no Brasil e mostrando que a tão propalada excepcionalidade brasileira não se sustenta quando contrastada com as condições de vida dos brasileiros negros.

A volta ao debate nos dá a oportunidade de reenfatizar um aspecto central da experiência negra nas Américas: em todos os países negras e negros ocupam índices cruéis na hierarquia social. Não há nada de excepcional no quadro de relações raciais do Brasil e a similaridade nas ‘condições materiais de existência’ – em que pese suas especificidades – ajudam a tecer uma comunidade política imaginada e concreta, a Diáspora Africana.

O que há em comum na experiência dos jovens negros das favelas cariocas e os jovens negros dos guetos de Chicago ou Nova York? O que une o viver urbano de negras e negros do Haiti, da Colômbia, de Cuba, dos EUA, do Brasil, dos países africanos? Quais as especificidades e as semelhanças na representação midiática de negras e negros nas Américas e nas Áfricas? Portanto, para desconstruir o mito da suposta importação acrítica do padrão de relações raciais dos EUA, teríamos que perguntar aos neo-freirianos do momento por que a fobia com a crescente conscientização política transnacional negra e por que os negros brasileiros aparecem em seus textos como incapazes de possuírem uma autonomia intelectual própria.

Tal fobia está presente nos textos de Demétrio Magnoli. Em Fora da Lei, o autor repete as táticas já conhecidas nos seus textos anteriores. Trata-se do recurso lingüístico de imputar a outrem afirmações que ninguém fez. Quem no movimento negro teria se oposto à defesa da qualidade do sistema público de ensino? Quem teria afirmado a existência biológica de raça? Haveria uma incompatibilidade na luta pela democratização do acesso à universidade pública e a defesa da escola pública?

De um lugar social racialmente privilegiado, os neo-freirianos ambiguamente reconhecem a existência do racismo, mas não admitem a luta política contra suas manifestações cotidianas. É como se raça fosse uma construção social sem impactos reais diferenciados nas chances de vida e de morte de brancos e negros - não é a toa que O Atlantico Negro, de Paul Gilroy, ocupe hoje no Brasil, mesmo nos círculos radicais negros , um lugar de destaque. Esse social construtivismo na verdade esconde uma paranóia contra qualquer forma de organização política que questione a supremacia branca. Ao contrário do que se quer fazer crer, o que orienta tais posicionamentos políticos não é a preocupação com o renascimento do ‘estado racial’ ou a suposta defesa da igualdade entre todos. Bobagem....

Os terrenos estão bem demarcados e não há ingenuidade no debate: a organização política dos negros e negras representa uma ameaça real ao poder político-econômico de uma elite branca que tem na academia e na mídia seus principais instrumentos ideológicos. Faz sentido, portanto, que intelectuais reconhecidamente competentes no repertório acadêmico como Ivone Maggie, Peter Fry, Márcia Green, e agora Demétrio Magnoli se prestem ao papel de arquitetos do caos e invistam suas carreiras acadêmicas na construção do ‘apocalipse racial’.

O mundo não vai acabar com as cotas nas universidades públicas, como mostra o exemplo positivo da Universidade de Brasília - a primeira instituição federal de ensino superior a aprovar cotas para negros - e das quase cem instituições públicas que adotam algum programa de ações afirmativas. Estas instituições estão recuperando o sentido republicano da universidade pública, ainda que após seis anos de cotas racias, a UnB ainda possua uma população afrodescendente sub-representada (eles são pouco mais de 3 mil dos 26 mil alunos). Mas a verdade é que quem tiver curiosidade de estudar os números da inclusão verá que as cotas raciais começam ajudar o Brasil na longa marcha em busca do reencontro consigo mesmo.

As ‘divisões perigosas’ que historicamente têm colocado em lugares sociais distintos negros e brancos – os primeiros nas favelas, nas prisões, na pobreza, nas estatísticas insidiosas da violência policial, no chão das fábricas e os segundos nas melhores universidades públicas, nos condomínios fechados, na direção dos conglomerados empresariais – são a verdadeira ameaça à efetivação da igualdade substantiva entre todos os brasileiros. A luta dos negros e negras por igualdade de direitos vai ajudar a consolidar a cidadania e transformar a democracia racial em uma realidade concreta. Só a luta organizada por igualdade racial de fato poderá desbancar o mito da harmonia racial.

As ações afirmativas não farão surgir um tribunal racial nem criarão uma ‘rotulação estatal dos cidadãos segundo o critério abominável da raça’. De fato, ‘raça’- como empregada por Demétrio Magnoli - é um critério abominável, como o é sua má-fé e o seu cinismo de colocar na mesma cesta a luta do movimento negro pela igualdade racial e o estado nazista alemão. Ao reivindicar a categoria raça como identidade política, negras e negros o fazem a partir de uma perspectiva crítica e o fazem porque os brancos não deixaram outra escolha no campo das disputas políticas. Nesse sentido, tem sido ainda pouco explorada a discussão sobre a incapacidade da esquerda brasileira em incorporar a dimensão de raça em sua estratégia política. O reducionismo econômico da luta de classes é sintomático da dificuldade, mesmo entre os mais progressistas intelectuais de esquerda, em entender a experiência negra, mas esta é uma outra história.

Racialmente interpelados como ‘negros’ – com toda significação histórica que a palavra carrega – no contexto de desigualdades racialmente estruturadas negras e negros re-significam a categoria ‘raça’ e tecem uma nova identidade política. Fazem sentido da vida e dos seus encontros cotidianos racializados a partir da identificação com um grupo social.

Se no embate político por direitos de cidadania novos brasileiros se reencontram com seu passado e quebram o paradigma da linha cromática sempre em direção ao branco, ainda melhor. O reconhecimento da negritude está em sintonia com a celebração da diversidade étnico-racial tão forte entre nós. Mas é hora de celebrar a diversidade brasileira não apenas no futebol ou no botequim, como certa antropologia da cordialidade sugere. É hora de miscigenar os espaços de poder.

O movimento negro está abrindo, no grito e na raça, uma porta ha tempos fechada. A intelectualidade negra cresce e com ela um novo paradigma na produção de conhecimento sobre as relações raciais no Brasil e nas Américas. Não seria a resistência às ações afirmativas um sintoma da impossibilidade cognitiva dos brancos em reconhecer seu privilegio e o lugar de onde falam?

Para saber mais:
Bourdieu & Wacquant. As artimanhas da razão imperialista. Estudos Afro-Asiáticos, Ano 24, nº 1, 2002, pp. 15-33
HANCHARD, Michael (2001). Orfeu e Poder. Movimento Negro no Rio e São Paulo. Rio de Janeiro, EdUERJ/UCAM.

3 de jan. de 2010

De onde fala Boris Casoy?: Arrogância jornalística, cinismo cruel e fascismo social

Jaime Amparo-Alves


Na noite do dia 31 de dezembro, o jornalista Boris Casoy fechou a conta anual da imprensa brasileira à altura do jornalismo praticado pela mídia gorda em 2009. Para os padrões éticos da imprensa nacional, não poderia ter sido melhor. No intervalo do Jornal da Band, o apresentador deixou escapar uma daquelas verdades guardadas no closet e disfarçadas sob o moralismo dirigido comum aos representantes da meia dúzia de redações do eixo Rio-São Paulo que comandam o jornalismo do país. Sob risos, Boris disparou: “Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho”.


Ainda que o comentário, por si só, deixe transparecer o que pensa um mais respeitados âncoras do jornalismo brasileiro sobre os garis, a infeliz frase de Casoy apenas expressa a ponta de um complexo emaranhado ideológico que sustenta as distinções/hierarquias sociais em nosso meio e que tem na mídia um dos seus principais instrumentos. Mais do que ofender os garis e os telespectadores/as do Jornal da Band – e foi uma ofensa seriíssima -, a frase é expressão do jornalismo hegemônico que consumimos que por sua vez deve ser contextualizado nas nossas relações sociais.

A inteligentsia brasileira já tentou explicar essa arrogância social, esse desqualificar de certos grupos, a partir de uma antropologia do jeitinho brasileiro – destaque para o famoso: ‘você sabe com quem está falando?. Tal antropologia, que tem Roberto Da Matta como seu maior expoente, identificou o desprezo às normas e as estratégias interpessoais de legitimação de poder e distinções sociais como regras da vida cotidiana. Marilena Chauí e Paulo Sérgio Pinheiro identificam na herança do Brasil autoritário (a primeira no mito fundacional do país, o segundo nos períodos de estado de exceção) certo autoritarismo socialmente implantado que faz com que as dominações de gênero, raça e classe social sejam sistematicamente reproduzidas em nossa sociedade e encontrem eco mesmo entre as ‘vítimas’ preferenciais da nossa tradição violenta.


Se o jornalismo, como prática social, é reflexo da sociedade, então é razoável crer que o fazer jornalístico também carrega em si as mazelas e vícios sociais do seu tempo. É razoável, mas poucos têm reconhecido esse pertencimento/afinidade jornalística com os padrões perversos de reprodução das desigualdades e hierarquias. Desde a faculdade, jornalistas são semi-deuses/semi-deusas com o dedo em riste, prontos para – a serviço dos patrões – destruir biografias, criminalizar movimentos sociais, negar a existência do racismo, investir no caos.....


É a arrogância jornalística que entra em discussão aqui, não apenas no sentido da arrogância editorial de um veículo se portando como detentor da ‘verdade’absoluta, mas também na postura dos/das figurões da mídia gorda – âncoras, comentaristas, apresentadores – que emprestam a cara aos editoriais dos veículos que representam. Seria ingenuidade não considerar um aspecto central neste contexto: o controle dos patrões sobre a atividade jornalística. No entanto, os figurões em questão só o são porque representam bem o discurso dos proprietários dos meios onde trabalham. Todos os dias eles/elas estão aí com o seu moralismo dirigido – no horroroso jornalismo policial de fim-de-tarde da Band, na estética dissimulada/sofisticada dos editoriais do Bom Dia Brasil ou nos comentários arrepiantes de um tal Arnaldo Jabor no Jornal Nacional, ambos da TV Globo.... E por aí não pára.... vide os textos indigestos dos colunistas de jornalões como Folha, O Globo e Estado, replicados na imprensa regional Brasil afora.


Boris Casoy não está só no que pensa sobre os pobres. O seu insidioso comentário tem muito a nos dizer também sobre o que pensam os nomes da mídia grande sobre sua função social. O desprezo pelos pobres e o silencio das causas gritantes da pobreza não encontra eco apenas no plano político partidário onde uma certa afinidade com o discurso dominante orienta a prática ‘jornalística’ contra os partidos de orientação mais à esquerda. Também no plano social, esse moralismo dirigido investe pesadamente na criminalização dos movimentos sociais, das periferias urbanas e das pessoas em situação de rua..... Quem não se lembra das capas históricas da revista Veja sobre o MST (matéria de capa 'A tática da baderna' de 10/05/2000, por exemplo)?.


“Que m..., dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho”. Ta aí.... Boris Casoy bebe da mesma fonte que sustenta o nosso fascismo social – como empregado por Boaventura de Souza Santos - e que é amplamente difundido na humilhação diária a que são submetidos jovens negros no jornalismo policial com suas justificativas cínicas às mortes de supostos ‘bandidos’ nos ‘confrontos’ em ações da polícia, na adjetivação preconceituosa dos protestos urbanos por moradia ou na criminalização das mobilizações pela reforma agrária, na difamação da luta dos afrobrasileiros por ações afirmativas.


Assim como o presidente-metalúrgico agride a sensibilidade depurada dos nossos ‘gatekeepers’, ao escandalizar Casoy, o gari - “o mais baixo na escala do trabalho”- de certa forma expõe de onde falam os formadores de opinião da mídia gorda. A crítica dissimulada que fazem do poder a partir de uma retórica humanista cínica e vazia, não esconde o lugar social de onde falam e os valores que representam.


Aperte o cinto: concentrado em meia dúzia de redações no eixo Rio-São Paulo, o jornalismo hegemônico segue firme na sua promessa cretina para 2010. A contar pela maneira como Casoy iniciou o seu ano de trabalho, não há tréguas: as redações continuarão sendo lugar privilegiado para a legitimação de padrões de dominação. A não ser que a sociedade reaja – junto com as/os jornalistas conscientes da sua responsabilidade social - em um movimento amplo pela democratização dos meios de comunicação e pelo controle social da atividade jornalística – por meio de um Conselho Federal de Jornalistas – garis, domésticas, nordestino/as, negro/as continuarão sendo objetos da violência simbólica e moral de quem deveria zelar pela dignidade humana. Isso é uma vergonha!

16 de dez. de 2009

Estatuto da Igualdade Racial: o facão do DEM e a submissão política negra

Jaime Amparo-Alves

Na semana passada, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) apresentou no Senado Federal outro substitutivo ao projeto do Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). Trata-se de mais uma das inúmeras emendas que transformaram o projeto original em uma piada de mau-gosto.

Na nova versão apresentada pelo senador do DEM (ex-PFL), se propõe tirar qualquer referência à palavra ‘raça’, desmonta por absoluto qualquer possibilidade de ações afirmativas nas universidades públicas, retira as propostas de políticas diferenciadas para a população negra no Sistema Único de Saúde, rejeita as políticas de combate à violência contra a juventude negra e contra a mortalidade materna negra, recusa a proposta de incentivos fiscais para as empresas que promoverem a diversidade étnica em seu quadro de funcionários. Tudo isso depois da devassa feita anteriormente e aprovada pela Câmara dos Deputados. O que sobrou?

Sobrou uma carta de princípios cheia de bobagens recheadas com verbos do tipo: incentivar, possibilitar, valorizar...... Não vou me aprofundar nas justificativas do senador Demóstenes Torres porque a/o leitora/or deste jornal já sabe o lugar racialmente privilegiado de onde o senador fala. Também já não é segredo para nós os recursos discursivos de uma certa antropologia branca que utiliza estratégias sofisticadas para manter o privilégio racial dos seus representantes a partir da evocação de uma tal brasilianidade/cordialidade que supostamente nos torna iguais no botequim e no futebol. Ainda, dispensa comentários a paranóia branca para com o termo raça, o que revela a sua impossibilidade de ver a condição privilegiada em que vivem aqueles/las cuja cor da pele é fonte de lucro e prestígio.

Detenho-me apenas na posição política do movimento negro frente ao Estatuto. Algumas entidades e tendências políticas - em que pese o esforço bem-intencionado de ver o documento aprovado visando gerar um marco legal para as lutas futuras - vêm negociando o projeto com um certo pragmatismo que incomoda e assusta. Incomoda porque tais organizações falam em nome de um movimento que a duras penas vem tentando criar uma unidade mínima naquilo que lhe é mais caro: a luta contra a hegemonia racial branca.

O movimento negro é múltiplo em suas dimensões políticas, e é bom que se mantenha assim. Mas ao se outorgarem o papel de negociadores – geralmente são homens negros os portadores da voz destas entidades – da questão negra com o governo e com as forças políticas mais atrasadas, sem levar em conta o longo caminho percorrido na luta histórica, algumas lideranças negras estão jogando na lata do lixo nossa tradição radical. Assusta porque as justificativas para a concessão – cada vez maior – de pontos importantes do projeto original se dão a partir de um fatalismo esquisito, com explicações que não convencem: cuidado, o Estatuto indígena está engavetado há 15 anos; o momento atual não comporta o confronto; é hora de negociação; esse papo de radicalismo é coisa do passado; utopia não enche barriga....Seria, de fato, o fim da História? Ou há uma pobreza em nossa imaginação política?

Talvez o facão do senador Demóstenes Torres seja providencial para o nosso momento político. Não que eu comungue com a tese de que o pior Estatuto seja o melhor para nos unir – e essa não é a posição das entidades que agora negociam a aprovação do documento - , tampouco endosso a critica radical que caracteriza os líderes de tais organizações como os novos capitães do mato, mas tenho esperanças de que elas se dêem conta do suicídio político que se avizinha com a sua gradativa subordinação `as forças mais conservadoras do país e se unam ao coro daquelas que sustentam a autonomia política e as bandeiras históricas como princípios inegociáveis. Em nome de que e de quem falam tais líderes? Houve um processo amplo de discussão interna em suas respectivas entidades, como o fez corajosamente o MNU? Qual a justificativa para fazer tanta concessão em nome da aprovação de um documento que já nasce morto?

No momento, a derrota pode ser uma vitória. Se a versão anterior do Estatuto já deixava dúvidas quanto a sua eficácia no combate das desigualdades raciais, a atual já deveria estar descansando em paz. Explico: esta não é uma recusa histérica da mesa de negociação. Já aprendemos que ocupar os espaços de poder estratégicos é missão importante na luta anti-racismo e foi graças a esta estratégica que muitas entidades negras driblaram as artimanhas do nosso racismo. O que se pede é que não se perca de vista a linha tênue entre a negociação e a subordinação política. Apoiar o Estatuto como está é agredir nossa história de lutas.

Em ‘A História da Riqueza do Homem’, Léo Huberman nos conta a seguinte anedota: sabe como se caçava macacos nos tempos antigos? Os caçadores faziam buracos nos cocos pendurados nos coqueiros e enchiam-nos de açúcar. Os buracos eram feitos de forma que só passava a mão aberta do macaco. Com fome e desconfiados, os animais enfiavam as mãos nos buracos fechando-as cheias do produto. Era a hora da caçada: morriam mas não desistiam do açúcar. Pois bem, a natureza anti-negro do Estado brasileiro deveria, no mínimo, suscitar reflexões nos que agora falam em nome da causa negra.

*(In)felizmente, minha posição neste artigo não representa, necessariamente, o ponto de vista das entidades das quais faço parte.

9 de out. de 2009

AS OLIMPÍADAS SÃO NOSSAS. E OS EMPREGOS?

Com a escolha do Rio de Janeiro para sediar os jogos olímpicos de 2016, o Brasil entrou definitivamente no seleto grupo dos países mais influentes do mundo. Se por um lado a conquista nos anima, por outro deixa dúvidas sobre quem irá usufruir dos frutos do empreendimento. Os governos municipal, estadual e federal irão gastar juntos R$ 20 bilhões na construção de vila olímpica e na modernização da infra-estrutura urbana da cidade maravilhosa. A pergunta que não quer calar: como os pobres serão beneficiados? Haverá políticas de inclusão racial nos postos de emprego que serão gerados?

OBAMA GANHA NOBEL DA PAZ

O primeiro Presidente Negro dos EUA ganhou a premiação ‘por seus esforços diplomáticos em favor da paz mundial’, afirmou a BBC de Londres. Será que é mesmo assim? Obama não tem insistido na política do terror que marcou a “Era Bush”? O que será que a população paquistanesa – assim como a afegã e a iraquiana - que continua submetida às tropas invasoras estadunidenses tem a nos dizer? Talvez o prêmio sirva para fazer Obama refletir sobre a paz em seu sentido mais pleno.